O amor nas águas do tempo

Jairo Carmo

Jairo Carmo – autor de “Carnaval amarelo” e “Belas viúvas” – volta a nos encantar com a beleza de sua prosa neste novo romance que encerra a trilogia “As águas do tempo”, iniciada com o primeiro livro. As histórias são independentes, embora possam ser lidas em sequência, porque as personagens fazem parte da mesma família. Em “O amor que fica” (7Letras), Francisca volta a Miradouro, na região Norte, ao encontro de suas raízes e em busca do amor, após o fim do casamento. Recém-chegada na mansão da família, acha no fundo de um baú o diário da vó Marta Benício, que fala com a neta como se estivesse viva e a estimula a escrever suas próprias vivências.

“O amor que fica” tem como pano de fundo um momento histórico importante do nosso país, a transição para o regime democrático.

Leiam a entrevista com Jairo Carmo

“O amor que fica” é narrado por uma mulher, Francisca, 34 anos. Como foi assumir a voz de uma jovem mulher?
R.: Não foi difícil. Brinco que nasci de mulher, sou casado há quase 50 anos, tenho 3 filhas, 3 netas. Na literatura, dizemos alteridade: prática de criar voz narrativa diversa à identidade do autor. Esteticamente, historicamente, a escrita de ficção é empatia com imaginação. Não ignoro o debate contemporâneo, mas o lugar de fala é mesmo de Francisca, a neta em grave conflito com a mãe e super-agarrada à avó materna, Marta Benício. Um narrador onisciente a introduz, aí ela toma conta da história para compartilhar seus medos, suas dores, seus segredos.

A política sempre está presente em seus romances como pano de fundo, mas neste ganha destaque maior. Fale um pouco dessa opção.
R.: A ideia original era escrever um romance político. Na história, Marta Benício, mulher do senador Aníbal Pinheiro, seria a Senhora Imaculada, título que mudei para “As águas do tempo”, mais adequado à trilogia. Na época que concebi Senhora Imaculada, aos 17 anos, o Brasil vivia sob os grilhões do AI-5, o lado mais sangrento da revolução de 1964, transformada em ditadura militar. No meu estado do Pará ribeirinhos enfrentavam a carnificina da “Guerrilha do Araguaia”. Não havia como ignorar “tanto horror perante os céus”, diria Castro Alves, agravado pela pobreza endêmica do povo, condenado à indigência em terra tão rica como é a nossa Amazônia. Eu queria questionar o poder, o governo, as leis, a desigualdade em uma obra de ficção.

Como “O amor que fica” dialoga com os dois livros anteriores da trilogia “As águas do tempo”, “Carnaval amarelo” e “Belas viúvas”?
R.: Esclareço isso no final de “O amor que fica”. As histórias são independentes, mas as mesmas personagens movimentam a narrativa. Mudam o contexto, as circunstâncias, a intensidade.

Foi muito difícil escrever sobre várias gerações de uma mesma família? Precisa desenhar uma árvore genealógica?
R.: Admito que não é tarefa fácil. Escrever um romance já é desafiador, que dirá uma trilogia com personagens vindas desde a Cabanagem, violenta revolta popular que ocorreu na Província do Grão-Pará entre 1835 e 1840. Creio que consegui a façanha e deixo com a palavra as leitoras e leitores, cujo testemunho é que verdadeiramente faz o livro nascer ou agonizar à espera de quem lhe dê vida. Sobre desenhar uma árvore genealógica, não foi necessário, porque as personagens estão bem caracterizadas, sendo possível conhecê-las sem brechas a equívocos.

Quais são seus planos agora?
R.: Simples e direto: escrever um romance centrado na justiça. Falta definir se será um casal de juízes, um deles a viver o drama de um caso especialmente dramático, posto envolver um filho criado por pais adotivos. A revelação da paternidade – ou maternidade – na sessão de julgamento provocará um abalo psicológico de consequências imprevisíveis. Enfim, sigo amadurecendo a trama.

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