Bossa Nova de Nova Iorque para o mundo

Inês Rodrigues é jornalista e escritora brasileira radicada em Nova York desde 2004, onde obteve o mestrado em Ficção e Escrita Criativa pela Columbia University. “Dias de Bossa Nova”, seu primeiro romance como autora, foi publicado em 2017 pela editora novaiorquina Black Opal Books e obteve excelentes registros na imprensa norte-americana. Agora, a história de Felipe Navarra e sua família, descendentes de espanhóis, chega ao Brasil pela Editora Folhas de Relva. A voz do narrador, afetuosa e firme, permeada de bom humor – até nos momentos mais dramáticos –, é um dos pontos fortes do livro. O romance também pode ser visto como um hino de amor à cidade de São Paulo e um passeio vibrante pela História do Brasil do século vinte. Leiam a entrevista com a escritora.

Você publicou nos Estados Unidos, um dos mercados mais difíceis do mundo, e teve relativo sucesso com resenhas positivas em vários portais de Cultura. Por que publicar no Brasil?
R: O Wagner Moura, ator baiano de O Agente Secreto — que venceu o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes do ano passado —, tem uma boa definição sobre isso. Quando lhe perguntam o que acha do sucesso internacional, ele diz: “Na verdade, tudo o que eu faço é para a Bahia. A minha maior satisfação é saber que, na Bahia, as pessoas apreciam o meu trabalho”. Isso explica boa parte da minha vontade de publicar no Brasil, pois a reação do leitor brasileiro terá outro sabor para mim. Dias de Bossa Nova é um mergulho na nossa história, na nossa cultura; então, nada mais interessante do que compartilhar isso com os brasileiros.

Seu livro se passa no início do século vinte e tem como pano de fundo o desenvolvimento da capital São Paulo. Como foi a pesquisa para escrever?
R: Foi uma parte muito gostosa do trabalho que, ao todo, durou quase três anos. Há doze anos, não havia IA, então comprei muitos livros sobre a história de São Paulo e li muitos arquivos on-line dos jornais diários da época. Eu escrevia por três ou quatro semanas, depois dava um tempo na escrita e ficava só lendo e pesquisando. Os hiatos de pesquisa me ajudavam a colocar o que eu escrevia em perspectiva e também me inspiravam a criar algumas cenas — como a descrição do que acontece nas ruas (e, depois, na casa do Felipe) no dia da morte de Getúlio Vargas, por exemplo.

A voz do narrador-protagonista é realmente cativante. Como chegou a ela?
R: A voz é uma coisa muito particular do escritor e, para mim, é algo misterioso — algo que se escuta primeiro, algo que está guardado em algum lugar do coração e da mente. Na hora de escrever, a gente simplesmente a deixa sair. Eu sei que muitos escritores dizem isso, mas, quando a história vem do nosso lado sensível, é assim mesmo que acontece.

O sequestro da sobrinha Mariana, em certo ponto da trama, imprime um toque de romance policial ao livro. Já estava previsto desde antes de começar a escrever ou surgiu em meio ao processo?
R: Já estava previsto. Eu sempre quis escrever o romance em duas linhas do tempo distintas: uma mais longa, mostrando como a história influencia a vida das pessoas comuns, e outra com um evento mais marcante no presente. E quem ler o livro verá que a violência de hoje, como a que afeta Mariana, pode ter raízes em falhas do passado.

Você é professora de Escrita Criativa. Isso te ajudou a escrever? Ou foi “casa de ferreiro, espeto de pau”, como se diz no Brasil?
R: No meu caso, ensinar ajuda muito a escrever. O exercício diário de ler e discutir os textos dos alunos, e de pesquisar sobre técnicas de escrita constantemente, me inspira e me faz uma escritora melhor, com certeza. O fato de dar aulas também me dá oportunidades de ir a conferências, leituras e eventos literários onde a gente aprende muito ouvindo e participando de discussões com outros escritores. Além de dar aulas de escrita, eu também dou aulas de italiano e faço traduções. A meu ver, quem lida com línguas diferentes no dia a dia desenvolve uma elasticidade mental com as palavras muito interessante. Para mim, o escrever e o ensinar andam de mãos dadas — ou melhor, grudadas.

Como é o mercado editorial norte-americano? Parecido com o brasileiro?
R: Sim e não. Para um escritor iniciante, o caminho das pedras é bem parecido: os agentes literários, apesar de numerosos em um mercado bem profissionalizado, não prestam muita atenção no autor, a menos que ele seja bem-relacionado.
Há muito mais revistas e jornais literários aqui, mas os que realmente contam , como a The New Yorker, Guernica e The Paris Review, são ultracompetitivos. Enviar contos ou poemas para essas e outras publicações (e ser escolhido, claro) é um rito de passagem comum para o escritor iniciante. Porém, nas revistas menos competitivas o escritor raramente recebe pagamento pela publicação. Na hora de lançar o primeiro livro, a maioria dos autores publica em editoras pequenas, não tem agente e tem de fazer o trabalho de divulgação e promoção por conta própria. Por outro lado, aqui o mercado é gigante, com milhares de livros publicados todo ano em todos os gêneros: desde autopublicações de ficção científica na Amazon até lançamentos badalados de ganhadores do Nobel.

Você vem ao Brasil para uma série de lançamentos em São Paulo, Rio de Janeiro e Trancoso, na Bahia, onde tem casa e passa certa parte do ano. O que espera desses lançamentos?
R: Espero encontrar os amigos nas noites de autógrafo, fazer novas amizades no mundo literário, celebrar, assinar muitos livros e — muito importante — que todos leiam Dias de Bossa Nova.

Quais são seus planos daqui pra frente? Novos livros em vista?
R: Com certeza. Tenho várias coisas alinhadas. Depois do lançamento de Dias de Bossa Nova no Brasil, vou fazer alguns eventos literários com as comunidades brasileiras de Nova York no segundo semestre. Ao mesmo tempo, estou revisando o manuscrito do meu segundo romance em inglês e já contatando agentes por aqui para publicá-lo. Tenho um projeto de tradução de uma autora brasileira para o inglês e já estou anotando ideias para outro livro escrito diretamente em português para ser publicado só no Brasil. Vocês não vão se livrar de mim!

Este site utiliza cookies para lhe oferecer uma melhor experiência de navegação. Ao navegar neste site, você concorda com o uso de cookies.
Mais Info