Uma estrela dos palcos desponta na literatura – e sobe

Dizem que os olhos são as janelas da alma. A escritora e atriz Denise Courtouké, em seu romance de estreia, inunda nossa alma com a beleza das palavras para contar a história de Francesca, mulher linda e imperfeita – por isso mesmo, ainda mais linda – que perde a visão por causas hereditárias e vai morar em Ouro Preto com tia Gioconda, a única que parece lhe compreender. Esse é apenas um dos fios da história de “Olhos feitos de poeira de estrelas e névoas” (Ed. Reformatório), onde a narrativa em primeira pessoa flerta com o ensaio para abordar variados temas que encantam e atraem a protagonista. Leiam a entrevista com Denise, uma estrela dos palcos que desponta na literatura – e sobe.

Você é atriz reconhecida e premiada com longa carreira nos palcos. Por que escrever um romance?
R: A leitura esteve comigo desde sempre, através da biblioteca de meus pais: literatura, filosofia, história, arte e outros assuntos. Comecei meus primeiros experimentos em dramaturgia na EAD (USP); segui pesquisando literatura e dramaturgia no Centro de Pesquisa Teatral e no Grupo de Arte Boi Voador. O corpo tomou meus pensamentos, me envolvi com dramaturgia do corpo, fiz parte do Body Weather Laboratory no Japão e de outros processos preciosos. Fiz muitos espetáculos que traziam a literatura, a poesia, a dramaturgia e o corpo em conversa. Escrever um romance foi um processo orgânico, memórias e vestígios de experiências, emergiram.

O tema da deficiência visual, de onde surgiu?
R: Eu queria criar uma protagonista, mulher e cega, queria dar força ao que não é visto. O tema é uma metáfora. Trabalhei em dança com processos que envolviam o corpo como visão além do olhar, fui professora de dança para deficientes visuais e cegos. Tudo que vivi, se apresentou como tema. Eu queria falar sobre camadas da sociedade contemporânea, inundada de imagens e informações, surgindo todo o tempo, em velocidade vertiginosa. Somos empurrados a não conseguir ver além do óbvio, a ver mais profundamente, além dos preconceitos e julgamentos imediatos que a visão ordinária impõe. Minha protagonista é obrigada a enxergar com todo o corpo, de forma sinestésica, com toda alma, além das aparências. Parece ser uma tendência, associar o escuro ao que é ruim, o cérebro carrega medos muito primitivos: medo do desconhecido, das perdas, da doença, de certas etnias, da morte. Meu intuito foi mostrar que o escuro, o que é deixado no escuro ou negado, precisa ser visto, reconhecido e amado. Também utilizo o escurecer, ou o chiaroscuro (claro-escuro), como técnica para que o leitor se perca e possa pensar mais, desejar ir mais profundamente.

O livro é narrado em primeira pessoa, mas contém micro-ensaios sobre temas variados que trazem muita informação. Como chegou a esse formato?
R: Os “micro-ensaios” não são eloquência vazia, informações empurradas para o leitor ou exercício de intelectualidade, são parte orgânica da espinha dorsal da narrativa. Para a protagonista, ler e escrever é uma forma de sobrevivência, ela é uma mulher que ficou cega, que sempre quis escrever, mas não teve coragem de seguir a carreira de escritora, preferiu o conforto do exercício da advocacia, profissão segura, conforme sua família esperava. Como ela é cega, o mergulho no conhecimento, através das palavras, da etimologia, da arte, da ciência, da história de seus ancestrais e de seus países, da memória da cidade onde ela passa a morar, tudo isso é inestimável, é razão para continuar a viver. Dessa forma, é vital que a narrativa mostre tudo isso.

Francesca vai para Ouro Preto, que é uma cidade desafiadora para quem tem deficiência visual. Por que Ouro Preto?
R: Ouro Preto é uma cidade cercada por névoas, a vemos “embaçada” em determinadas épocas do ano; cenário metafórico, símbolo do interior da personagem, de suas incertezas, de suas dificuldades, de seu caminhar tortuoso em meio às pedras de sua própria condição. Cidade que amo, que visitei algumas vezes, também é ninho e colo para Francesca, é alimento, é memória e história em cada rua, abraço para alguém que teme perder suas memórias. Francesca está em pedaços, a memória a auxilia a reintegrar os cacos. Existe uma arte no Japão chamada Kentsugi que recria com tempo e arte, com o auxílio da memória, uma peça que se rompeu, sem jamais descartar. Mesmo os objetos, as pedras de uma cidade, são memória viva, merecem todo nosso respeito e cuidado, são parte de nós. A jornada de Francesca é a arte de abraçar nossos fragmentos, cicatrizes, objetos e pessoas, fantasmas, e mesmo aquilo que ainda sangra em nós, e amar tudo isso.

Sua escrita tem muita beleza e literariedade. Quais livros e autores te formaram como escritora?
R: Muitos e muitos livros. Dentre os autores que habitam meu corpo: João Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Manoel de Barros, Lígia Fagundes Telles, Thomas Mann, Umberto Eco, Marguerite Duras, Nelson Rodrigues, Shakespeare, Tchékhov, os trágicos gregos. Eu leio de tudo, literatura brasileira contemporânea, mangás, roteiros de cinema, clássicos, leio todos os gêneros de literatura.

Planeja continuar escrevendo?
R: Escrevi o esboço de um segundo romance, mas por enquanto, “Olhos feitos de poeira de estrelas e névoas” é meu marido, irmão, companheiro, amante, avó, avô, mãe, pai, irmã, amigo, bisavó, e por aí vai. Escrevi uma dramaturgia para teatro, “Entrevistas sobre a decadência”, que parece ter sido escrita por uma das mil pessoas que vivem dentro de mim, é cheio de humor, engraçado e trágico, terrível e delicioso, sensível e duro, as personagens estão em estado limítrofe; as influências literárias, cinematográficas e corpóreas o tornam uma delícia.

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