Memória, melancolia e mobilidade social frustrada da geração millennial

Com base em citações literárias, fotografias analógicas, filmes, músicas e videoclipes da cultura pop, Dieison Marconi escreveu “30 anos blue” (Urutau, 2026), romance autobiográfico guiado pelo blue – sensibilidade estética associada à tristeza e à melancolia. O livro amplia o tema abordado em seu livro anterior: “As memórias de um smalltown boy” (ensaio), que o autor define como “um cosmopolitismo do pobre/gay” vivido através do deslocamento geográfico e existencial por diferentes lugares. Ao longo desse percurso, o autor/personagem entrelaça memórias pessoais aos grandes eventos políticos e culturais que marcaram o nosso país entre 1994 e 2024, e explora temas como a descoberta da homossexualidade em um ambiente empobrecido e rural, o acesso a educação formal, a busca por pertencimento em um mundo hostil, o amor pela arte, pela literatura e pelo conhecimento. Leiam a entrevista com o escritor.

É notável a sua exposição como autor/protagonista/narrador em “30 anos blue” abordando questões sensíveis como bullying e preconceito contra pessoas LGBTQUIAP+. Como se sentiu escrevendo e agora, ao lançar o livro?
R: Se é para expor a si mesmo, acredito que a arte, no caso a literatura, é o lugar mais acertado para fazê-lo. Digo isso porque uma literatura de autoficção bem-feita é como uma escavação íntima que acolhe todas as contradições, nuances, insuficiências e complexidades de quem está não apenas escrevendo sobre si, mas escrevendo a si mesmo. Isso é um gesto capaz de conectar pessoas para formar uma comunidade que vai muito além de um mero narcisismo. O que precisei fazer para recompor 30 anos da minha história de vida, os quais se misturam aos últimos 30 anos da história do Brasil, foi um duplo movimento. Por um lado, eu mergulhei nas minhas memórias pessoais e na nossa memória coletiva, mergulhei em meus arquivos pessoais e em nossos arquivos históricos e culturais; por outro lado, criei um distanciamento da minha própria experiência para que assim fosse possível transformá-la em uma narrativa que precisa trabalhar com escolhas, seleções, exclusões etc., a ponto de torná-la interessante para os leitores e as leitoras. Então, no geral, me sinto tranquilo quanto a isso.

No último capítulo, intitulado “Lisboa”, você revela que a leitura do romance “Os anos”, de Annie Ernaux, foi decisiva para que iniciasse a escrita de “30 anos blue”. Como foi o encontro com essa voz? Já pensou em fazer com que um exemplar da sua obra chegue à vencedora do Prêmio Nobel de Literatura 2022?
R: Se um dia o livro for traduzido para o francês ou para o inglês, com certeza. Sempre gostei de ler autoficção (ou autosociobiografia, como a própria Ernaux gosta de chamar). Gosto de ler autoficção porque me sinto próximo das pessoas que escrevem. Me sinto quase um amigo delas. Entre os escritores que li, sempre houve escritores franceses ou escritores estrangeiros radicados na França. Gosto muito de Hervé Guibert, Didier Eribon e Abdellah Taïa, por exemplo. E já li quase tudo que Ernaux escreveu. No entanto, para escrever “30 anos blue”, “Os anos”, de Ernaux, foi a inspiração mais direta, especialmente porque gosto como ela consegue recompor a história da França pós-II Guerra Mundial pela perspectiva de uma menina/mulher da classe operária, olhando, ao mesmo tempo, para aquilo que é minúsculo, para as coisas pequenas do cotidiano de classe, e para os grandes fatos históricos que marcaram o país em pouco mais de 40 anos.

A alternância de lugares e mudanças de cidades já apareciam em seu livro anterior, de não-ficção, “As memórias de um smalltown boy”. Em “30 anos blue” elas pontuam a narrativa e nomeiam os capítulos. Como um smalltown boy conseguiu ganhar o mundo?
R: Em meu livro anterior, a geografia dos lugares aparece diluída nos ensaios que compõem o livro. E há outras coisas semelhantes entre os dois livros, por exemplo, a memória, o passado que sempre retorna, a homossexualidade, a cultura pop transnacional, os “afetos negativos” que a sociedade geralmente considera pouco nobres (o ressentimento, a inveja, a tristeza, a raiva, a angústia, a melancolia etc.). No entanto, eu não teria escrito “30 anos blue” sem antes ter escrito “As memórias de um smalltown boy”, pois foi com esse livro que me dei conta de uma insuficiência de linguagem e estilo: meus dois primeiros livros, mesmo sendo ensaios, ainda “precisavam” dialogar sobre esses temas com um público relativamente acadêmico, enquanto “30 anos blue” busca por uma democracia mais ampliada. Dizendo sem rodeios, sempre escrevi muito, escrevi sobretudo ensaios de crítica cultural, artística, acadêmica, autoficcionais. Mas só consegui mesmo me assumir como escritor agora, com “30 anos blue”.

O texto de apresentação no site da Editora Urutau se refere ao seu livro como “a história coletiva de uma geração: jovens empobrecidos que nasceram nos anos 1990, que foram beneficiados pelas políticas públicas de acesso à educação dos anos 2000 e 2010 e que enxergaram, ingenuamente, na educação formal uma possibilidade de ascensão de classe”. No seu caso, a educação foi ou não uma possibilidade de ascensão?
R: Essa é uma boa e complexa pergunta. Posso responder que sim e posso responder que não. Posso responder que sim porque, em termos de capital cultural ou intelectual, é claro que “ascendi socialmente”; e a responsabilidade disso é das universidades públicas brasileiras pelas quais passei, as quais me legaram um conhecimento antes restrito aos enriquecidos. Porém, quando digo que não, é porque não me considero inteiramente um trânsfuga de classe, como faz Édouard Louis em seus livros.

Faço parte de um grupo populacional (a geração millennial) que, apesar de ascender em termos de educação formal e de capital crítico/intelectual, não tem conseguido ter uma casa própria; ou não tem conseguido um emprego bem remunerado o suficiente para pagar um aluguel; ou não consegue sair da casa dos pais ou muitas vezes precisa de ter dois ou mais empregos precarizados ao mesmo tempo. E quem, como eu, dedicou anos da sua vida à ciência, muitas vezes precisa ir embora do Brasil para ter um emprego nem sempre estável.

Por isso, quando digo que o livro recompõe a história coletiva de jovens empobrecidos que nasceram nos anos 1990, que foram beneficiados pelas políticas públicas de acesso à educação dos anos 2000 e 2010 e que enxergaram, ingenuamente, na educação formal uma possibilidade de ascensão de classe, estou a fazer tanto uma elegia quanto um lamento destas políticas públicas/educacionais e, mais amplamente, das políticas assistencialistas desenvolvidas desde o primeiro governo do PT.

As políticas assistencialistas e as políticas de acesso e ampliação à educação formal foram essenciais para o arrefecimento da desigualdade social e econômica no país; elas foram essenciais para que eu e muitos outros jovens pobres, negros, estudantes de escolas públicas etc., pudéssemos finalmente acessar as universidades públicas. Por outro lado, e diferentemente do que nós, jovens, amigos e colegas meus um dia acreditamos, isso por si só não alterou radicalmente as nossas vidas e muito menos a desigualdade estrutural no Brasil. Sozinho, o acesso ao ensino superior não melhora a vida de ninguém; e hoje, mais do que nunca, partidos de esquerda deveriam assumir que é preciso fazer muito mais do que uma frágil redistribuição de renda assistencialista ou paternalista.

Muito se caminhou, nos últimos anos, em direção ao reconhecimento dos direitos das pessoas LGBTQUIAP+. Qual é a sua percepção? Ainda precisamos avançar mais?
R: Moro na Europa e tenho acompanhado de perto a ascensão da ultradireita no continente. Aqui em Portugal, mas também em outros países europeus, alguns partidos de ultradireita também têm ampliado seus ataques contra a população LGBT+ e tentado desmantelar direitos juridicamente conquistados nas últimas décadas, embora o foco mais frequente seja os imigrantes, dos quais muitos são LGBT+ refugiados. Ao mesmo tempo, acompanho as notícias sobre o Brasil, a América Latina e os Estados Unidos. E não há dúvida de que partidos de ultradireita em distintos países tornam a população LGBT+ os bodes expiatórios para uma angústia social da população que não será resolvida com encarceramento, expulsão ou violência contra imigrantes e pessoas LGBT+. Acho que a arte, neste caso a literatura, tem uma presença importante nisso. Ela amplia o tecido das nossas sensibilidades, da nossa alteridade, ajuda a nos colocar em relação com o outro em um momento em que todos nós parecemos cada vez mais encolhidos em nossos próprios grupos e existências, quando não fazendo da diferença uma inimiga.

Você não vem ao Brasil para o lançamento presencial do livro. Como será o lançamento na Europa?
R: De fato, não tenho previsão de ir ao Brasil por enquanto. Mas haverá um lançamento aqui em Lisboa no mês de outubro.

Está nos seus planos continuar a escrever? Tem novos projetos em curso?
R: Felizmente, como um pesquisador integrado em um instituto de história da arte, 90% do meu trabalho é ler, escrever e publicar. Então, tenho trabalhado em diferentes projetos de escrita ao mesmo tempo. Trabalho na escrita dos ensaios que irão compor, futuramente, o livro que será o resultado do meu atual projeto de pesquisa; atualmente, tenho uma coluna de crônicas no jornal português Público (na secção Público Brasil); e, claro, estou escrevendo um novo romance. O romance que estou escrevendo não é uma autoficção ou uma autobiografia, mas, ainda assim, aborda temas que são importantes para mim, como a memória e a recordação, a homossexualidade e o deslocamento.

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