Toda grande literatura inventa uma linguagem. Algumas vão além: inventam também um modo de existir. “movidos: ocos” pertence a essa rara linhagem de livros que não apenas contam uma história, mas erguem um mundo. Lopes Lindoso constrói uma civilização inteira – seus mitos, seus ritos, sua memória, sua filosofia, sua relação com o tempo, com o corpo, com a morte e com a paisagem – e o faz a partir daquilo que talvez seja a matéria mais decisiva de qualquer cultura: a língua.
Em “movidos: ocos” você inventou uma História (de uma civilização), uma mitologia, um alfabeto e uma língua. Quanto tempo levou escrevendo o livro?
R: Depende do ponto de vista. O primeiro conto mitológico, escrevi por volta de 2013 quando li uma reportagem sobre o país insular Quiribáti, localizado na Oceania, no centro do Oceano Pacífico. A matéria falava sobre o risco dele ser engolido pelo mar num futuro não tão distante. A decisão de escrever o livro veio mais de dez anos depois. Nesse tempo, houve muitas leituras e estudos. Entre o início da redação e a última revisão, passou um ano e meio, embora eu sinta que ainda estou escrevendo esse livro. Ou seja, foram mais de dez anos ou um ano e meio. Ou essa resposta se encontra no futuro.
“De acordo com a nossa pesquisa, movidos: ocos, ou ntonkano: nguevi em aunaím, é o primeiro livro traduzido do aunaím”. “(…) talvez essa tradução inteira seja um equívoco. Como todas as outras”. Seu livro é uma homenagem ao ofício da tradução? Ou um questionamento da validade da mesma?
R: É uma homenagem não só à tradução, mas aos tradutores. Vem de algumas reflexões – para alguns, radicais – de que ou tudo é tradução ou a tradução não existe. Por um lado, se o conceito de tradução existe, passar o pensamento para o papel ou para a tela é uma forma de tradução. Passar o pensamento para os sons que saem de uma boca e transformar esses sons de novo em pensamento também são uma forma de tradução. Por outro lado, se a tradução não existe, tradutores e tradutoras também são co-criadores e co-criadoras das obras, mesmo que, infelizmente, não sejam considerados como tais. Em todos esses casos, o erro é imprescindível. O que não se fala e o que não se escreve também definem a mensagem passada. Usando esses extremos, esse livro tenta reforçar a tese de que traduzir é criar e criar é traduzir.
Fica a dúvida se o pesquisador Wigmar Schönherr, que teria iniciado a tradução do livro em aunaím, existiu mesmo. Esse jogo faz parte da ficção?
R: O próprio livro trata sobre a relação entre a ficção e o real, e em que momento um molda o outro. Acho que o Wigmar gostaria que essa interpretação fosse dos leitores.
O modo de narrar – sem maiúsculas, com rara pontuação e longos parágrafos – se aproxima da escrita de obras de caráter antropológico/étnico, como por exemplo, “A queda do céu”, de Davi Kopenawa. Como foi a pesquisa para escrever o livro? Quais leituras te inspiraram?
R: Em 2015, por um golpe de sorte, eu li “Araweté: uma visão da cosmologia e da pessoa tupi-guarani” do Eduardo Viveiros de Castro. Aquilo me deixou deslumbrado, foi o mesmo sentimento que tive quando percebi que sabia, de fato, falar alemão. Acho que esse momento foi a base teórico-emocional do livro. Eu quis voltar a esse mesmo sentimento, como o de abrir uma janela em minha mente para um mundo-outro.
Yeda Pessoa de Castro, Lévi-Strauss, Heike Behrendt, Ailton Krenak, Davi Kopenawa, livros com histórias indígenas e sobre folclores de diferentes regiões passaram pela minha cabeceira. Além disso, eu sempre estudei diferentes idiomas, então a pesquisa para o livro não foi intencional, mas um produto de leituras passadas. Outras fontes de inspiração foram Yoko Tawada, sem a qual o livro não existiria, Guimarães Rosa, Ariano Suassuna, Aglaja Veteraniy, Raduan Nassar, Jorge Luís Borges, Wolfgang Borchert, António Lobo Antunes, Valter Hugo Mãe e Gonçalo M. Tavares.
Que tipo de leitor se interessaria pelo seu livro?
R: Acho que todos que se sentem atraídos pelo realismo mágico se interessariam. Os que se interessam por idiomas, tradução, antropologia, mitologia, migração, identidade e diferentes perspectivas de um mesmo mundo. Todos aqueles que veem na literatura, tanto na forma como no conteúdo, uma maneira de se deixar envolver por uma realidade completamente outra. Aqueles que querem sair da modorra de um mundo hipertecnologicizado e reencontrar o encanto de imaginar mundos alternativos. Leitores de García Márquez, Cabezón Cámara, Ursula K. Le Guin, Guimarães Rosa, Borges, Hilda Hilst, James Joyce, Thomas Mann e quem se interesse pela Semana de Arte Moderna de 1922.
A parte final do livro contém um dicionário aunaím-português. Como chegou à grafia/design desses caracteres? Eles existem ou é tudo invenção?
R: O alfabeto georgiano é lindo, então esse foi meu ponto de partida para os caracteres. Eu também tenho uma queda por diacríticos, como acentos e cedilhas, é como se fossem joias que embelezam a leitura. Por isso, não tinha como não usá-los também, de alguma forma, o que me levou a estudar outros alfabetos modernos como o Ńdébé e o Gbékoun, respectivamente do igbo e do fon, da África ocidental.
Você também criou um site – https://lopeslindoso.com/aunaim – com a gramática, alguns contos e o dicionário do idioma aunaím. Qual é o objetivo do site, se é que existe um objetivo?
R: Não sei se tem um objetivo, espero que seja mais uma forma de admiração, para que os leitores consigam entender que um idioma é um mundo inteiro. Caso ainda queiram ler os contos no original, estarão lá também. É sempre interessante ler a tradução e o original, na minha opinião, e ver o silêncio que existe entre os dois. O que um idioma esconde é tão importante quanto o que ele destaca, como diria Gasset y Ortega, e isso molda a percepção de mundo do falante, constrói o mundo latente de cada um.
Você é tradutor profissional de textos com linguagem técnica científica. Isso influiu de alguma forma na criação do seu livro?
R: Sim, sem dúvida. A precisão necessária na tradução técnica é exageradamente empregada nos movimentos dos personagens, refletir sobre equivalências tradutórias, unidades de medidas incongruentes entre culturas que, de alguma forma, têm que significar o mesmo. Mas o que é significar o mesmo entre culturas tão diferentes?
É uma opção sua não usar rede social, com exceção do LinkedIn, onde mantêm um perfil profissional. Preocupa-se com a ideia de que isso possa dificultar divulgação/circulação do seu livro?
R: Eu não me preocupo, mas sei que atrapalha. Gostaria de acreditar mais no poder do próprio livro e na generosidade dos leitores, que eles comentem e compartilhem entre si. Conversas são mais importantes que telas.
Tem planos de continuar escrevendo?
R: Sim, eu já tenho um segundo livro incipiente e estou decidindo quanto da cultura aunaím vai entrar.

