Ao longo de mais de quatro décadas de criação, Adriano Espínola construiu uma obra marcada pelo movimento. Seus livros mais conhecidos – de “Táxi” a “Metrô”, de “Beira-Sol” a “Praia provisória” – transformaram a viagem, a cidade, o trânsito dos corpos e da linguagem em matéria poética. Em “Ave nave do dia” (Ed. 7Letras), esse impulso reaparece sob uma forma ao mesmo tempo mais livre e mais abrangente: a do percurso que atravessa tempos, paisagens e experiências, reunindo poemas escritos em épocas distintas, mas ligados por uma mesma atenção ao mundo e aos seus sinais. Leiam a entrevista com o poeta.
VM – “Ave nave do dia” reúne quarenta anos de poesia. Como foi a seleção para compor a obra? Quantos poemas do livro são inéditos?
AE – O livro não reúne propriamente 40 anos de poesia, pois isso daria um volume bem maior. “Ave nave do dia” contém apenas 50 poemas. O que aconteceu foi que localizei 6 deles publicados em jornais nas décadas de 1970 e 80 (portanto há mais de 40 anos) e nunca reunidos em livro, ao lado de 11 inéditos escritos também por essa época. Juntando esses últimos aos 26 compostos recentemente, temos 37 inéditos em livro autoral. Na parte final do “Ave nave do dia”, na seção “Sobre os poemas”, faço referências aos 13 textos já publicados em jornais, revistas e antologias.
VM – O livro anterior ao atual foi uma edição revista e atualizada de “Metrô”, publicado originalmente em 1993. O poeta Adriano Espínola ainda escreve poemas? Ou se dedica revisitar e lançar luz sobre a obra?
AE – Escrevo ainda poemas, mas com menos frequência com que escrevia aos 30, 40 e 50 anos. Depois dos 70, a mão já está um pouco cansada, não é? Por outro lado, sinto necessidade em revisitar a minha obra, sobretudo os poemas longos (“Táxi” e “Metrô”). Eu fiz isso durante a pandemia, buscando melhorar algumas passagens, criando e recriando alguns versos, porque na verdade continuo insatisfeito com o meu trabalho. Não sei se o que fiz até aqui continua a merecer a atenção do leitor. Creio que fechei um ciclo, ao reeditar no “Ave nave do dia” alguns poemas da juventude. Poderia até dizer que encerro com isso a produção de poesia. Agora estou todo prosa.
VM – Ao relançar o “Metrô”, em 2023, você foi convidado a participar do prestigioso programa Entrelinhas, com uma entrevista conduzida pelo crítico literário Manuel da Costa Pinto, na TV Cultura de São Paulo. Como é o reconhecimento da poesia brasileira hoje? O cenário melhorou ou piorou?
AE – Sim, gostei muito de ser entrevistado pelo Manuel da Costa Pinto, crítico inteligente e sensível. Na entrevista, ele afirmou ver no “Metrô” uma espécie de síntese poética entre a produção que se tem feito no Rio, com certa tendência à oralidade e à linguagem coloquial, e a produção de São Paulo, voltada ao experimentalismo e à visualidade. Achei interessante essa abordagem, pois nunca tinha pensado nisso. Quanto ao reconhecimento da poesia brasileira hoje, creio que, com o advento das redes sociais e a internet, há uma divulgação extraordinária do gênero por todo o Brasil. Acredito que nesse sentido o cenário melhorou, com a participação de muitas vozes.
VM – Além de poemas, de feição tradicional, “Ave nave do dia” traz textos curtos em prosa poética sobre temas variados. Como surgiram esses textos?
AE – Há duas seções no livro com poemas em prosa, “Canção de amor do velho marinheiro” e “O eu sitiado”, cada uma delas com quatro peças. Como surgiram esses textos? Não sei. Eu os encontrei no fundo do baú (e de mim mesmo), pois são textos de alta subjetividade: uma que se volta para a experiência amorosa, tendo por base mítica o retorno de Ulisses à sua amada; e a outra, de feição existencial, tendo por base mítica a temporalidade e a infância. Bem, esses poemas em prosa contrastam com algumas outras peças compostas por versos curtos e alguns outros por versos isométricos e rimados e de temática social. Quis juntar nesse volume poemas de formas e temas diversos, para que o leitor se divirta um pouco com algumas dessas possibilidades da expressão poética.

