Estreia bem baiana e auspiciosa

Duas mulheres, que ainda não se conhecem, têm suas trajetórias narradas em paralelo. A primeira é idosa, está acamada e vive das lembranças de uma vida dedicada à família que a recebeu quando migrou do sertão baiano para buscar trabalho na capital. A segunda é Tieta, que saiu da zona cacaueira para estudar, porque era muito inteligente, mas acabou virando diarista. Se relaciona com dois homens e fica grávida sem saber de quem. A escritora baiana Lara Tironi entrelaça essas histórias em seu romance de estreia, “Vapor de dendê não tem cor” (Ed. Patuá), nos conduzindo por passado, presente e projeções de futuro de personagens invisibilizadas, que refletem as variadas formas da desigualdade na sociedade brasileira. Leiam a entrevista com a autora.

“Vapor de dendê não tem cor”: por que escolheu este título para o seu livro?
R: Como o livro se passa em Salvador, utilizei o ditado popular “água e óleo não se misturam” e envelopei de Bahia na figura do dendê. Ao longo da história, desenvolvo esse conceito de que água e dendê não se misturam, o que culmina na fala de uma das personagens, “Vapor de dendê não tem cor”, e mais não posso falar sem dar spoilers.

Você escolheu não nomear uma das protagonistas, escolha audaciosa para uma escritora estreante. De onde veio essa ideia? Ficou mais difícil narrar desse jeito?
R: Omitir seu nome não era a intenção quando comecei a escrever a história dessa personagem. Até o momento de sua chegada na estação de trem de Salvador, não precisei pensar sobre isso porque o nome dela simplesmente não apareceu. Contudo, me deparei com a seguinte cena: depois de um longo abraço, a irmã da narradora anônima se vira para o patrão para apresentá-la. Ali a ideia surgiu. E se eu simplesmente não deixasse claro, até a hora em que as histórias se cruzam, quem é essa narradora? Mal sabia eu que teria bastante trabalho. Não foi somente omitir seu nome, tive também de omitir os nomes dos demais personagens, e para isso me utilizei de subterfúgios e apelidos. Olhando para trás, acho que o esforço valeu a pena. Muitas pessoas vêm me falar da surpresa quando finalmente as histórias se entrelaçam. Essa é uma boa recompensa.

Você também ousou sair do seu lugar de fala para contar as histórias de mulheres de classe social diferente da sua. Considera essa uma opção arriscada?
R: Quando as personagens surgiram na minha cabeça, sabia que estava diante de um desafio enorme. Decidi escrever aquela história, ver aonde o devaneio poderia chegar. Decidi também parar de escrevê-la. Larguei o texto algumas vezes. Mas era sempre tragada de volta, precisava colocar o ponto final, mesmo que a história nunca fosse publicada. Já pensei muito sobre isso. Eu tenho um lugar de fala sobre racismo, porém meu lugar de fala é diferente do de uma pessoa preta e periférica, obviamente. Mas, pensando na literatura, tenho para mim que o escritor não deveria estar preso ao seu único ponto de vista. O exercício de imaginar-se dentro do personagem, sentir, sofrer, rir, chorar, é das ferramentas mais poderosas que temos. Podar a escrita a apenas um ponto de vista é ceifar a própria literatura. Estaríamos circunscritos apenas à autoficção, um gênero maravilhoso que ganha um espaço enorme na literatura contemporânea, mas que está longe de ser o único permitido.

Você narra os cenários da comunidade da Gameleira e seus personagens de um jeito todo especial. Como foi a pesquisa do livro? Chegou a visitar a comunidade?
R: A comunidade da Gameleira é uma criação literária, é a junção de muitos elementos reais e fictícios. Já visitei, sim, comunidades, e todos esses lugares me deram repertório para criar esse lugar que chamei de Gameleira, que é incrustado num bairro nobre de Salvador, mas que não reflete apenas um lugar. Para descrever a comunidade do livro, também vi fotos e vídeos, ouvi relatos etc. Assim que voltei para Salvador, por exemplo, fui convidada para um almoço numa comunidade, na casa de uma amiga. O livro estava escrito, a Gameleira já tinha ganhado vida, mas, quando entrei ali, não pude deixar de me sentir orgulhosa com as descrições que tinha feito.

O tema da vez é o uso de inteligência artificial para escrever livros. Como é a sua relação com este recurso?
R: O maravilhamento com a junção de palavras precisas que descrevem uma coisa específica é um dos grandes prazeres da literatura. Saber que um ser humano conseguiu moldar aquele pedaço bruto de argila num jarro belíssimo é encantador. A inteligência artificial tira de nós, meros mortais, esse deslumbramento com o trabalho alheio. Usar a inteligência artificial para escrever livros é trair os leitores, mas, pior do que isso, é trair a si mesmo. Se não ficou claro: não uso inteligência artificial nem para corrigir meu nome.

Parece cada vez mais desafiador angariar leitores além de família e amigos numa época em que a leitura de textos longos está em queda. Como lida com isso?
R: Tento desesperadamente furar a bolha. Faço absolutamente tudo que está ao meu alcance para conseguir que o livro seja lido. Não há uma fórmula mágica, é um trabalho de formiguinha. Há dias melhores e dias piores. Mas acredito que, se o livro é bom, ele tem a possibilidade de ganhar algum fôlego e emergir à superfície do mar de livros não lidos. Isso só o tempo dirá.

Dizem que baiano não nasce, estreia. Como se sente estreando na literatura com “Vapor de dendê não tem cor”?
R: É engraçado pensar nas etapas por que um livro passa. Quando estava imersa na escrita, tinha na cabeça que o caminho daria no ponto final. Não tinha a clareza de que, depois do fim, haveria ainda uma longa jornada pela frente. Depois do primeiro ponto final, reescrevi uma parte da história, passei por duas revisões editoriais, busquei editoras, recebi quatro aceites de publicação (até agora), passei por mais uma revisão, capa, diagramação, peguei o livro nas mãos. Essa jornada ainda não acaba aí. Fiz lançamento, sessão de autógrafos, tenho participado dos grandes eventos literários do país: Bienal do Livro Bahia, A Feira do Livro, Flip, Flipelô, Fligê, Bienal do Livro São Paulo. Bato de porta em porta virtual dos formadores de opinião para me apresentar e divulgar meu livro. Não sei aonde vamos chegar, eu e Vapor de dendê não tem cor, mas posso dizer que, até aqui, tem sido um prazer imenso percorrer essa estrada. A cada mensagem que recebo, um sorriso genuíno arrancado do rosto. Pessoas falando que não leem muito por vez para que o livro não acabe, pessoas falando que não conseguiram parar de ler e acabaram em três sentadas, pessoas sinalizando como se surpreenderam com o desenrolar da história. Documento todas para ler no futuro. Não poderia pedir mais nada dessa estreia tão ansiada.

Este site utiliza cookies para lhe oferecer uma melhor experiência de navegação. Ao navegar neste site, você concorda com o uso de cookies.
Mais Info