Uma escritora em sentido contrário à banalidade dos dias atuais

Em seu novo livro, “O sentido contrário da estrada de voltar” (Ed. Patuá), Julianne Veiga mantém o tom dos contos que encantaram os leitores em 2021, quando lançou “Histórias do meio do mundo” durante a clausura provocada pela pandemia. O olhar diferenciado sobre as miudezas da vida, a paisagem do cerrado e os ecos de um Brasil bucólico que ainda existe e resiste estão presentes nas crônicas que revelam a beleza e a magia do que poderia ser banal. Leiam a entrevista com a escritora nascida e criada em Goiás Velho, antiga Vila Boa, cidade de Cora Coralina e da impressionante Procissão do Fogaréu.

Seu livro tem um título complexo que, por vezes, é preciso reler para entender. Por que decidiu nomear assim a sua obra?

R: O título resulta das indagações que passei a me fazer depois que li o nome de uma estrada em uma placa antiga, feita em pedra-sabão. A inquietação se expandiu, encostando na percepção de que havia nela um diálogo tangencial com a intenção que cultivo, desde sempre, de percorrer um caminho autônomo. Penso que a adoção de percurso em sentido contrário ao que nos é imposto como padrão ajuda a preservar quem somos individualmente sendo, também, ato de resistência à crescente tendência massificante coletiva. Minhas crônicas têm um pouco disto, eu acredito. Assim, “O sentido contrário da estrada de voltar”, para mim, funciona, ao mesmo tempo, como um chamariz e um propósito. Como título do livro, ganha uma perspectiva mais ampla do que a adotada quando nomeia uma das crônicas.

O gênero crônica nasceu e floresceu ligado ao suporte dos jornais. Com a decadência da imprensa, se dispersou nas redes sociais e, recentemente, voltou a ser valorizado. Por que a crônica?

R: Gosto muito das crônicas porque vejo nelas o estabelecimento de uma interlocução mais direta entre quem as escreve e quem as lê. Diferente de outros estilos literários, como os contos e os romances, nos quais autora/autor e leitora/leitor transitam pelo território da imaginação, dentro de uma narrativa em curso, numa troca algo difusa. As crônicas, por outro lado, funcionam como canal para uma espécie de conversa entre pessoas e o mais provável é que a maioria delas sequer chegarão a estar juntas presencialmente. Há nas crônicas um posicionamento autoral, que reflete a subjetividade, a voz, a identidade e a perspectiva da pessoa que as escreve sobre os temas abordados. Nisto, creio, elas, igualmente, dão a quem as lê a possibilidade de dialogar com o texto e, também, de se posicionar sobre o que lhe foi trazido pela leitura, em nova e diferenciada fala.

O primeiro livro foi lançado de forma virtual, em meio à pandemia, e mesmo assim foi lido por bastante gente, e fez sucesso na web. Como está sendo a experiência de lançar de forma presencial?

R: O lançamento presencial de “O sentido contrário da estrada de voltar” causou em mim forte emoção. Deu-se em uma noite tornada inesquecível pela presença de tantas pessoas que atenderam ao meu convite para, juntas, fazermos acontecer aquele momento, que nem eu mesma sabia seria tão especial. Para se ter uma ideia, encerrada a noite, eu estava sem nenhum exemplar do livro, tinham todos sido levados por boas mãos a percorrer novos caminhos. Apesar da forma virtual, o lançamento do “Histórias do meio do mundo” foi importante para unir pessoas que estavam isoladas durante aquela fase terrível da pandemia. No entanto, nada se iguala à possibilidade da troca direta permitida pelo contato pessoal, pelo olhar nos olhos, o abraço, o retorno instantâneo trazido pela voz de quem está ali com você. Tudo isto acaba sendo um caminhar em sentido contrário ao crescente individualismo.

A sua escrita tem muita poesia e revela um olhar delicado sobre as coisas. A poesia faz parte da sua formação como escritora? Quais poetas e quais livros te marcaram?

R: Minha formação é mais marcada pela prosa poética. Vejo poesia na escrita de José Saramago. Diversos livros dele me marcaram, mas para indicar apenas um cito “O evangelho segundo Jesus Cristo”, que foi o primeiro que li e já reli. Acho, também, poética a prosa de Eduardo Galeano e de Marcelo Gleiser, em “Círculo de fogo” e “Dança do universo”, respectivamente. Sérgio Sant’Anna, com sua escrita ficcional, que considero, ao mesmo tempo, densa, profunda, poética e lírica, é outra referência marcante. Dele menciono “O conto zero”. Gosto especialmente de Manoel de Barros, de quem tenho Poesia completa; de todos os publicados por minha conterrânea Cora Coralina e do Miserere, de Adélia Prado. Me agrada nestes três últimos a poesia que encontram no cotidiano, nas pessoas comuns e nas coisas consideradas simples e pequenas. Leio, ainda, poetas contemporâneos, entre eles Yuri Baiocchi, Marcos Caiado e Adriane Vieira, dois goianos e uma mineira.

Além de ser escritora, mãe e avó, você também é musicista. Qual é a importância da música na sua vida?

R : A música, que vejo como uma sofisticada manifestação da inteligência, tem lugar permanente em mim, surtindo diversos efeitos físicos e emocionais. Me acompanha como boa companheira, adaptando seu tom ao meu e acabando por me arrebatar para o seu. Em “O sentido contrário da estrada” de voltar tenho uma crônica, “Álbum de melodias”, na qual abordo esta sincronia existente em mim. Entendo que, para soar agradável, para além do seu conteúdo, é importante que a musicalidade esteja presente na escrita, dando-lhe boa cadência e ritmo sonoro.

A leitura está decaindo em todo o mundo porque a rapidez da Internet imprime um ritmo mais acelerado à vida, e isso parece incompatível com a imersão necessária à leitura. Qual é a sua visão sobre isso?

R: Sobre esta questão, adoto o pensamento de Zygmunt Bauman, sociólogo e filósofo morto em 2017, para quem a modernidade é líquida, em contraste com a solidez da fase antecedente. A massificação provocada pela globalização, o consumismo exagerado, inclusive de informações, o ritmo acelerado e frenético trazido pela internet, intensificado pela via forte das mídias sociais, fazem com que a densidade se dilua, cedendo lugar ao que é efêmero e está na superfície, de fácil e rápido consumo. Neste quadro de mudanças constantes de cenários, no geral, as pessoas acabam por adotar um ritmo tão intenso de vida que sentem não dispor de tempo o bastante para desenvolver boas conversas, relações estáveis, análises críticas e leitura para além das sínteses e chamadas.
Penso que andar pelo sentido contrário desta estrada agora assim pavimentada é um desafio que devemos aceitar e a leitura é uma de suas mais importantes vias alternativas.

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