Um olhar delicado e contundente sobre o universo feminino

Em seis narrativas independentes – entrelaçadas por um fio invisível de escuta, empatia e coragem –, “Crônicas de vidas singulares” (Chiado Books) mostra mulheres sofridas na luta diária por dignidade e sentido para viver. Algumas são expatriadas, outras escolheram se afastar da família de origem, outras renunciaram à convivência com os filhos. Temas como maternidade exausta, violência doméstica, identidade de gênero, sexualidade e reconstrução desfilam pelas páginas através do olhar arguto e sensível da recifense Débora Lagi, autora do livro. Leiam a entrevista com ela.

Seu livro mostra mulheres em situações de fragilidade e nos faz sentir na pele os dramas por elas vividos. Como surgiram as histórias narradas em Crônicas de Vidas Singulares?
R: Essas vidas singulares nasceram junto à descoberta do meu processo criativo, a partir da fusão entre os meus sentimentos e aqueles que emergem do exercício de escutá-las — seja por meio de uma matéria lida ou de uma simples conversa. ‘Elas’ surgiram da tentativa constante de calçar o sapato do outro — num gesto de empatia.

Os textos do livro são, na verdade, contos. Por que o título Crônicas de Vidas Singulares?
R: Para ser sincera, os três primeiros textos — Meio Século, Partidas e Escolhas — nasceram como crônicas, movidos pelo meu apreço por esse gênero literário. O título surgiu naturalmente desse gesto inicial de escrita. Com o tempo, à medida que as histórias ganhavam corpo, senti a necessidade de ir mais fundo, como se fosse capaz de vestir a pele de cada “Ela”, o que tornou inevitável a transição da crônica para o conto — ainda que eu tenha buscado preservar a sua agilidade e o seu fôlego. Quando isso aconteceu, o título já tinha alma própria — e não fazia mais sentido mudá-lo.

As personagens são muito reais e a conexão com elas é imediata. Essas mulheres existem ou existiram? Você as conheceu? Ou é tudo ficção?
R: As personagens são ficcionais, mas nascem de experiências humanas reconhecíveis. Estão ligadas por um fio invisível que atravessa dores, silêncios, medos e esperanças comuns a muitas mulheres reais, em qualquer lugar — seja na periferia de Recife, nas ruas monumentais de Roma ou em qualquer outra parte do mundo.

Alguns contos contêm pausas e reviravoltas que poderiam estar em um romance. É seu plano investir em uma narrativa longa?
R: Sim. Atualmente, estou trabalhando no meu primeiro romance. Embora a escrita do romance exija fôlego e entrega ainda maiores, a passagem para uma narrativa longa foi um movimento natural no meu processo de escrita.

Você mora em Roma, na Itália. Como acompanha a vida literária no Brasil? O que tem lido?
R: Mesmo vivendo na Itália, acompanho de perto a vida literária brasileira por meio de blogs de leitura, revistas especializadas e das redes sociais, que hoje ampliam o acesso ao debate crítico. Minha leitura é eclética e atravessa diferentes gêneros e vozes, mantendo um diálogo tanto com a literatura brasileira contemporânea quanto com a literatura mundial — ambas fundamentais na minha formação como leitora e escritora.

Você virá ao Brasil em abril para o lançamento do livro em Recife, onde nasceu e viveu grande parte da vida. O que espera dessa viagem?
R: Sim, esse é o projeto: estar em abril para apresentar a obra na minha cidade natal. Além de reencontrar minha família e meus amigos, espero compartilhar o livro com os leitores.

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