As epígrafes do novo romance de Jorge Sá Earp, “A volta do arlequim” (Ed. 7Letras), são uma prévia do que vem pela frente: paixão forte. O protagonista é Norberto, casado e pai de gêmeos, que retorna ao Rio de Janeiro após morar muitos anos na Europa. Ele reencontra Cristiano, companheiro de infância, e se apaixona por seu filho, o jovem Diogo. Jorge vive um momento especialmente bom na carreira porque seu livro anterior, “O veranista” (contos, 7Letras, 2024) é finalista do Prêmio Candango de Literatura. Ele já ganhou o Prêmio Nestlé, quando Jorge Amado era um dos jurados. Parabéns! Leiam a entrevista com o autor.
Você passou grande parte da vida morando em outros países antes de voltar a viver no Brasil. O protagonista de “A volta do arlequim” tem trajetória semelhante. O livro tem componentes autobiográficos?
R: Em parte, sim. O fato de Norberto ter vivido na Bélgica e na Itália coincide com a minha vida: também morei nesses países. O próprio retorno dele ao Rio se assemelha à minha volta à cidade natal. No entanto, as experiências do Norberto no exterior são diferentes das minhas.
O personagem do jurisconsulto é a deixa para trazer deliciosas referências sobre filmes, músicas e obras de arte, o que enriquece muito a leitura. Como surgiu este personagem?
R: Esse personagem surgiu da lembrança de um escritor que conheci. Acho que sempre tenho que criar um personagem ou um ambiente em que a arte esteja presente. É o meu elemento. Necessito dele para navegar mais à vontade.
O livro tem bastante humor. Impossível não rir das desventuras de Norberto atrás de seu “anjo”, sua obsessão. Isso foi planejado ou surgiu naturalmente?
R: Já percebi que esse é um dado recorrente na minha literatura: a perseguição ao “anjo”, a busca da Beleza, onde quer que ela se encontre.
O fato de Norberto ser casado e pai de dois meninos – e ele ama sua mulher – chama atenção para a vida dupla de alguns homens que não tem coragem de assumir sua bissexualidade. Acredita que no século XXI isso mudou? Está mais fácil “sair do armário”?
R: No século XXI os costumes avançaram muito, é verdade, diversos preconceitos caíram, pelo menos nos grandes centros urbanos. Em outras áreas, entretanto, há muito atraso de mentalidade. Mas acho que muitos bissexuais ainda se escondem seja por medo de verem seus casamentos destruídos, seja por temor da condenação de suas inclinações por parte da sociedade.
O livro traz também um retrato vívido do Rio de Janeiro com todas as suas contradições: desigualdade social, racismo velado, tráfico e consumo de drogas. Apesar disso, depois de morar em tantos lugares, você escolheu esta cidade para viver. Por quê?
R: O Rio de Janeiro pulsa nas minhas veias como meu próprio sangue. Não poderia viver em outra cidade. Há muitas referências culturais, históricas e biográficas para mim aqui.
Você tem mais de vinte livros publicados, o volume de contos “O veranista” saiu ano passado e um de seus contos teve página dupla no Jornal Rascunho. Quais são seus próximos passos?
R: “O veranista” ficou entre os dez finalistas do Prêmio Candango, concedido pela Secretaria de Cultura de Brasília, o que me deixou muito contente. A cerimônia de entrega será no dia 31 de outubro. Torço os dedos para ganhar, é claro, mas ficar entre os dez finalistas já é um prêmio.

