Nascido no subúrbio carioca de Coelho Neto, tendo passado grande parte da vida em laboratórios pesquisando o câncer e doenças neurodegenerativas, além de viagens a congressos internacionais para apresentar seus trabalhos, Jerson Lima Silva construiu uma trajetória científica reconhecida dentro e fora do Brasil. Em meio a essa intensa vida acadêmica, porém, havia também um leitor atento e apaixonado pela literatura. Essa formação literária transparece nas páginas de “Vidas Emaranhadas”, não apenas nas citações que atravessam o texto, mas sobretudo na maneira de narrar as histórias de Jeff, Mari e Gabriel — um triângulo amoroso que captura a atenção do leitor e conduz a trama por caminhos marcados por desejo, memória e destino. Leiam a entrevista com o autor.
“Vidas emaranhadas” é seu primeiro romance, você o escreveu após lançar três livros de poemas. Como foi a transição da poesia para a ficção?
R: Meu primeiro livro, “Quase Poesia”, foi lançado há dez anos, em 2016. Desde então, a escrita de poemas, bem como a leitura de obras poéticas, passou a integrar de modo decisivo a minha vida, o que culminou em “Cinzas de Luz” (2023), com muitos poemas escritos durante a pandemia, marcados pelas cinzas do luto, mas ainda atravessados pela esperança da luz. Em 2025, lancei “Poema de Papel”, livro que contrasta poemas curtos, como haicais, com poemas quase em prosa. Ali, de certo modo, estava o ponto de transição.
Havia em mim, há muitos anos, a ideia de um conto que emaranhasse histórias do subúrbio e da periferia com o poder transformador do conhecimento, seja pela cultura — literatura, cinema, arte em geral —, seja pela ciência. Esse conto acabou se expandindo e se transformando em um romance sobre o amor, entendido como força que atravessa o tempo, os corpos, as decisões e os mundos possíveis. Trata-se de uma prosa poética que reafirma, com vigor, que a literatura continua sendo uma das formas mais potentes de resistir ao empobrecimento do imaginário e à brutalização do sensível.
Trata-se de um romance caudaloso com algumas reviravoltas que surpreendem o leitor. Já sabia toda a história desde o início ou ela foi se revelando enquanto escrevia?
R: O processo criativo foi, em alguma medida, semelhante ao da criação de um poema, com a diferença de que o poema costuma nascer em horas, geralmente à noite, enquanto o romance dura a extensão de uma noite de mais de um ano. As reviravoltas ficcionais refletem também as reviravoltas que atravessamos em nossa própria jornada real. Busquei entrelaçar ciência, memória e poesia em uma narrativa lírica — eu sou um lírico — que acompanha os destinos de Jeff, Gabriel e Mari entre o subúrbio do Rio e o mundo acadêmico.
Também procurei ampliar esse horizonte com a presença simbólica dos orixás e da tradição do candomblé, unindo ciência, mito e ancestralidade. Na segunda metade do livro, a narrativa ganha ainda a dimensão de um thriller internacional, articulando tecnologia e poesia na tentativa de salvar o mundo, tendo como centro Pasárgada, em diálogo com o poema de Manuel Bandeira.
Você é médico e trabalha com pesquisa científica em medicina, vivenciando no dia a dia uma linguagem que pode ser um tanto árida. Como foi o processo de descoberta da sua voz autoral na ficção?
R: Acho que o próprio romance oferece uma pista para essa resposta, algo que já aparece na epígrafe como leitmotiv maior da narrativa: o poema “The Road Not Taken”, de Robert Frost. Os caminhos não trilhados não desaparecem; permanecem adormecidos e, em certos momentos, retornam com intensidade.
A carreira científica depende muito da inspiração e também da sorte — esta última entendida como entrar no trem certo, na hora certa, imagem central do romance. Uma teoria científica nasce da curiosidade e da intuição, mas precisa ser submetida ao crivo da experimentação. Para uma criança ou um adolescente, a busca por respostas aos fenômenos que o cercam se faz por muitas vias: pela ciência, pela literatura, pela religião, pela mitologia, seja a grega, seja a do candomblé.
De certo modo, “Vidas emaranhadas” busca conciliar minha trajetória científica com minha experiência poética.
A obra é permeada de referências a ciência e a literatura. Qual é o segredo para utilizar esses recursos sem parecer didático?
R: Embora, em algum momento da adolescência, eu tenha escolhido trilhar o caminho da ciência, a literatura, o cinema e a arte em geral nunca me abandonaram. Procurei mobilizar, no romance, referências que fizeram parte da minha formação e da minha vida: a poesia de Fernando Pessoa, Rilke, Lorca, Cummings, Manuel Bandeira; Proust e seu vasto tratado sobre a memória; e o cinema de David Lynch, Wong Kar-Wai, Wim Wenders e da Nouvelle Vague, entre outros.
Quanto ao segredo para que essas referências apareçam de modo adequado, eu diria que elas precisam surgir de forma orgânica, quase espiritual, com leveza, nunca como ilustração didática, mas como respiração interna do texto.
Através da trajetória de Jeff, o livro dá pistas de que pode ser, também, uma narrativa autobiográfica. Isso pode verdade?
R: A parte mais autobiográfica talvez esteja menos nos fatos do que nas marcas que a literatura e a arte deixaram em mim. Quanto à trajetória de Jeff, pode-se perguntar: se ela é autobiográfica, por que não também Gabriel? Ou mesmo Mari?
Mari, em particular, é o centro gravitacional da obra. É a figura que atrai, organiza, desestabiliza e sustenta todas as órbitas. E isso dialoga profundamente com minha própria história, marcada pela presença forte de mulheres: minha mãe, minha professora primária, minha tia, minha avó, minha irmã, minhas filhas, minha esposa de uma longa jornada, além de tantas alunas e colegas da ciência. A outra parte dessa constelação é feita de homens com alma feminina, igualmente parceiros de mulheres poderosas. Por isso retratei Mari como grande cientista, criadora, mulher atravessada por múltiplas linguagens — da matemática à poesia, da razão à intuição, do cálculo ao transe no candomblé. Mari não é apenas uma personagem: é princípio de movimento.
Pesquisas apontam que a leitura vem perdendo espaço para outras formas de entretenimento em todo o mundo. Como vê esse cenário?
R: O mundo digital rouba muito da atenção antes dedicada ao livro impresso. Acho extraordinário termos acesso imediato a praticamente qualquer obra literária. Mas todas essas ferramentas também induzem à dispersão do olhar. Parar para ler um livro exige disciplina; e essa disciplina costuma ser amplamente recompensadora depois das primeiras páginas.
Você é Professor Emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Diretor de Ensino, do Instituto D’Or de Ensino e Pesquisa (IDOR). Trabalhou e estudou muito a vida inteira. Por que a literatura é tão importante? Qual o espaço dela em sua vida, principalmente agora que está lançando um romance?
R: Trago comigo, até hoje, a sensação de que li muito menos do que deveria. Quando, nos anos 1990, li os sete volumes de “Em busca do tempo perdido”, de Proust, sentia literalmente que buscava recuperar o tempo perdido de não ter chegado antes àquela obra.
Por outro lado, a carreira acadêmica exige leitura técnica constante, orientação de alunos de mestrado e doutorado e uma dedicação quase integral. Mas, muitas vezes, o desvio do olhar para outra atividade — como a literatura — torna-se justamente a fonte de uma inspiração adicional. Todo o meu trabalho científico é povoado por metáforas emprestadas da literatura. Um exemplo recorrente é “O estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde”, de Robert Louis Stevenson, imagem que tantas vezes me serviu para pensar proteínas do bem que se transformam em proteínas do mal, causando doenças neurodegenerativas e câncer.

