Medíocre significa “na média”, ser “médio”. Ao buscar o significado nos dicionários, nada indica que seja tão negativo, mas ninguém gosta de ouvir que é um “aluno medíocre” ou que qualquer coisa que tenha criado seja medíocre. A carioca de alma paulistana Fabi Fróes, Relações Públicas de Crise do YouTube (sim, a maior plataforma de compartilhamento de vídeos do mundo), mãe de duas crianças pequenas, parte dessa premissa para desfiar, em 30 crônicas, situações em que a “mediocridade” esteve presente em sua vida, e os ensinamentos que delas extraiu. Leiam a entrevista com a autora.
Apesar da palavra “mediocridade”, em sua origem, não ser negativa, ela costuma ser usada com esse sentido. Foi uma ousadia escolhê-la como título do seu livro?
R: Nunca tinha pensado dessa forma, mas sim, foi destemida a minha escolha de título. Quando comecei a escrever o livro não tinha um plano e ele foi escrito com base no meu recorte de vida. Fui tomando decisões instintivas como essa e com total desconhecimento do mercado editorial. Inclusive só depois de publicado entendi a necessidade de uma assessoria como a Oasys. Mas ainda assim acho que a escolha do livro reverbera com muitas mulheres incríveis e cansadas dessa vida performática.
“Mediocridade” fala bastante de maternidade, mas não é exclusivamente sobre esse tema. Existe uma linha temática que amarre as crônicas do seu livro ou não?
R: Mediocridade é sobre ser mais que um papel apenas. É sobre ser mulher num relato pessoal da minha experiência de vida. Mas exatamente porque sei que somos medíocres, no sentido que nossas vidas dentro de um recorte sócio-econômico não são tão díspares, acredito que tem muita identificação com outras mulheres. Eu brinco que é como tomar um chope com uma amiga, despretensioso, informal. Talvez te traga insights, talvez apenas boas gargalhadas. Não quero dizer como alguém deve viver, nem que vivo melhor que alguém, mas acho que todas nós precisamos ser lembradas que tudo bem ser só ok.
Uma das qualidades do livro é a linguagem coloquial, bem próxima da falada, com gírias e piadas. Esse formato foi pensado ou fluiu naturalmente?
R: Sou completamente incapaz de escrever no meu tempo livre de outra forma. Eu faço isso demais como Relações Públicas de crise de uma big tech, escrevendo textos e tópicos de conversa para executivos. Esse livro foi uma catarse de tudo que eu falo para meus amigos, inclusive um tópico que reforcei muito no meu relato é a importância dos amores amigos, e que sempre me deram o feedback que meus devaneios poderiam virar um livro. Quem leu e me conhece diz que é exatamente como conversar comigo e esse era o tom que eu buscava.
Os desafios da vida corporativa também estão presentes na obra. Afinal, você trabalhou na maior emissora de TV brasileira e em duas big techs, uma das quais é seu emprego atual. A leitura dos seus textos pode ajudar quem se sente perdido nesse ambiente?
R: Tenho 41 anos e cheguei num momento muito confortável com quem sou. Gostaria que de alguma forma a leitura mostrasse que conforto nem sempre é algo ruim, como os millennials foram levados a acreditar por frases de Pinterest, que inundaram meu feed em 2012, e que diziam: “A vida começa no final da sua zona de conforto”. Tem muita vida no ordinário e a vida em grandes empresas também pode ser bem ordinária.
As referências sobre cinema, moda, livros enriquecem a obra e despertam a vontade de saber mais. A cultura sempre esteve presente em sua vida? Como surgiu esse interesse?
R: Eu sou curiosa, e acho que meu pai me ajudou a despertar isso em mim quando era muito pequena. Me lembro de ter 10 anos e ele me levar para ver o remake de “Milagre na rua 34” no cinema do Rio Sul no Rio de Janeiro. Quando saímos eu tinha achado o filme perfeito, afinal eu tinha apenas 10 anos e um repertório de vida que fazia aquela obra cinematográfica incrível. E ele me instigou a explicar por que eu tinha gostado e me explicou por que ele, de maneira muito educada e condizente para se comunicar com uma criança, tinha achado uma bosta. Três anos depois fomos ver “Seven: Os Sete Pecados Capitais” e tivemos uma discussão acalorada sobre o desfecho do filme. Ele ouvia ópera no escuro porque queria usar “só” um sentido para ter aquela experiência. Falava de filosofia e política, mas também era o cara que contava piada, me ensinou tudo sobre Guerra nas Estrelas e adorava comédia pastelão. Junto com a minha mãe me estimulou a ler muito, mesmo quando não tínhamos muita grana, nunca faltaram livros e educação.
Você é casada, mãe de duas crianças pequenas, tem cachorro e gatos. E ainda conseguiu escrever um livro. Qual é o segredo para dar conta de tudo isso? Será a mediocridade?
R: Essa foi a pergunta que mais me fizeram: que horas você escreveu um livro? Vou usar outra frase de pinterest de 2012: “se é importante para você, você encontra um jeito, se não é, você encontra uma desculpa”. Eu falo muito sobre o quão privilegiada eu sou dentro da minha vida. Tenho rede de apoio e uma situação financeira que me permitem definir o que é importante para mim e poder me dedicar. Então eu escrevi em todos os momentos livres que eu tinha: crianças vendo TV sábado de manhã, gravando podcast em Switcher, entre reuniões. E no fim, eu fiz por mim, sabe? Enquanto eu crescia sempre fui “recompensada” por dar o meu melhor não pela nota final.
Tem planos de escrever outros livros? Aventurar-se em outros gêneros como a ficção?
R: Não sou muito de fazer planos. Acho que sou mais das crônicas, mas como diria uma escritora que foi minha companhia no pós-parto, Rafaela Carvalho, eu não contraio matrimônio com as minhas decisões.

