Belezas e problemas da Ilha de Marajó em um romance cativante

Ana Laura é uma jovem cadeirante vivendo em Jenipapo, vila ribeirinha do Município de Santa Cruz do Arari, na Ilha de Marajó. Os desafios são muitos para quem é deficiente desde os 5 anos de idade, num lugar onde as ruas não têm calçamento e quando chove tudo vira lama. Ela também sofre com a falta de sensibilidade dos professores, colegas e vizinhos. Eles agem como se ela não existisse. Isso muda quando Daniel, moço bonito, dono de uma loja, se aproxima da menina e dá um novo rumo à trama. “Jenipapo” é o terceiro livro de ficção de Luciana Simon Leite, juíza e escritora que dedica sua vida e seu trabalho à defesa dos direitos das mulheres. Leiam a entrevista com a autora.

Seu livro descreve de maneira vívida as belezas e problemas do Marajó, região pouco conhecida da maioria dos brasileiros, pelo menos, dos que vivem no Sul e Sudeste. Você mesma mora em São Paulo. Viajou até lá para escrever o livro?
R: Meu primeiro livro, “Para nossas meninas”, finda com a protagonista se mudando para Belém. Daí a curiosidade sobre o Marajó, passei a pesquisar a respeito. Eu já estava escrevendo o livro quando fui para o interior do Marajó, Cachoeira do Arari e Santa Cruz do Arari.

Seus personagens espelham conflitos e dificuldades de quem vive em Marajó, um lugar com pouca infraestrutura. Poderia ter escrito um livro de não-ficção. Por que escrever um romance?
R: Porque o livro não é exatamente sobre dificuldades regionais. Elas são detalhadas porque resumem uma variada gama de graves questões brasileiras que estão presentes em contextos geográficos distintos. O livro nasceu para contar histórias de personagens que você pode encontrar na vida real.

A inspiração para o livro veio do padre italiano Giovanni Gallo (Turim, 1927), que morou em Marajó e fundou o Museu do Marajó para preservação da cultural local. Como tomou conhecimento da história dele?
R: Através de pesquisas na internet conheci o trabalho do padre Giovanni. Acessei documentários e li os livros que escreveu: “Marajó: a ditadura da água” e “O Homem que implodiu”.

É raro encontrar, na literatura brasileira, protagonistas cadeirantes. Talvez somente o romance “Enquanto os dentes” (Todavia Livros), de Carlos Eduardo Pereira, autor que também é cadeirante. Como foi entrar na pele de Ana Laura para narrar sua história?
R: A ideia de um terceiro romance foi justamente para falar sobre capacitismo, após entrevistar a filha de uma colega. Ana Laura nasceu para dar voz às meninas que apresentam alguma deficiência, mas são inteiras.

O encontro de Ana Laura e Daniel acontece logo no início e imprime humor e leveza a uma trama permeada de pautas sociais. Já planejava a formação do casal ou eles ganharam vida própria, e te surpreenderam?
R: Sim, estava planejado. Porque amor é o que dá sentido à existência, na minha concepção. E o fato de uma mulher ter alguma deficiência não muda a necessidade, tampouco a possibilidade de se realizar afetivamente.

Seus livros são todos dedicados a causas sociais. De onde vem esse ímpeto?
R: Escrevi livros sobre questões que considero importantes para as pessoas, com linguagem acessível. Porque acredito que conhecimento e reflexão mudam a realidade. Isso é necessário e mais: urgente.

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