Aventura épica no Brasil colonial

No século dezoito, as Minas Gerais convulsionadas pela busca de ouro eram terra de ninguém, com cidades de ruas enlameadas e a população pobre batalhando o alimento diário nas roças. Nesse cenário inóspito nasce Bento, brasileiro filho de Joaquim e Antônia. Ele é o protagonista da saga “Sob o ouro e o altar” (Ed. Bagaço), criada pelo médico e escritor pernambucano Eduardo Paixão, que se entremeia à História (com H maiúsculo) do próprio Brasil, em uma época em que o conceito de “civilização” era ainda vago e distante. Leiam a entrevista com o autor.

Em meio à história de Bento, seus pais Joaquim e Antônia, o tropeiro Pedro Nunes e outros personagens memoráveis, emerge a pesquisa histórica acurada que fornece um panorama vívido da vida na época colonial. Como se deu esse trabalho?
R: Eu gosto de ler e estudar história. O primeiro livro que escrevi foi a genealogia da minha família. O segundo foi a biografia do meu pai. Em 2024, fiz uma viagem pelo circuito histórico de Minas Gerais e me encantei com a riqueza cultural daquele estado. Após fazer um tour a pé pelos becos de Tiradentes, comecei a criar um roteiro — uma história ficcional de uma família tendo como pano de fundo a corrida do ouro no século XVIII —, e decidi que deveria privilegiar o lado humano desse período colonial.

Você escreveu sobre a linhagem mestiça de sua família no livro “Mamelucos e Curibocas” (2006), livro de não-ficção que reflete a formação do povo brasileiro. Por que decidiu se aventurar na ficção, mais precisamente, o romance histórico, agora?
R: Sou fascinado pelas relações humanas. É comum ouvir que vivemos usando o “jeito brasileiro de ser”. Mas o que é o jeito brasileiro? Somos um povo mestiço, com características e cicatrizes civilizatórias de uma sociedade que se formou entre o indígena, o negro e o europeu. A ideia de escrever sobre o que existia sob o ouro e o altar — nome do livro — era explorar esse universo civilizatório. E, para isso, nada melhor do que criar um romance ficcional para ter a História como pano de fundo. Tenho recebido muitos feedbacks de leitores que, ao se transportarem para o século XVIII, visualizam os tempos atuais.

Os personagens do livro são muito bem construídos. Soam verdadeiros e a conexão com eles é imediata. Como eles surgiram?
R: Procuro trazer o leitor para o ambiente e as sensações dos personagens. Dessa forma, escrevo personagens em camadas, não totalmente bons ou ruins, como de fato a maioria das pessoas é. Além disso, procuro descrever o ambiente em detalhes, puxando o leitor para o cenário que está sendo narrado. Lembro que, quando li pela primeira vez “O Estrangeiro”, de Albert Camus, a descrição da cena do velório da mãe de Meursault, o personagem principal, me encantou. Bento, Joaquim, Antônia e Pedro Nunes são pessoas comuns, construídas em camadas de amadurecimento e propósitos de vida.

Antes do escritor sempre vem o leitor. Quais autores e livros marcaram sua vida?
R: A leitura não foi um hábito estimulado quando eu era criança. Mas tínhamos em casa uma grande biblioteca e eu adorava ler os livros de história geral e clássica do meu pai. Nessa fase, li os clássicos nacionais de José de Alencar (“Lucíola”, “Diva” e “Senhora”) e Aluísio Azevedo, com “O Cortiço”. Por volta dos 20 anos, li Albert Camus, Thomas Mann, A. J. Cronin, depoisos livros de história de Laurentino Gomes e Eduardo Bueno, e as obras de antropologia e sociologia de Darcy Ribeiro.

Você atende em consultório, dá aulas na faculdade, edita um informativo sobre medicina e ainda faz trabalho voluntário em um residencial para idosos. Como encaixa a leitura e a escrita em sua rotina?
R: Confesso que leio muito menos do que gostaria e deveria, mas foco naquilo que estou fazendo. Durante meses, li compulsivamente as fontes literárias que me ajudaram a escrever “Sob o ouro e o altar”. Nos finais de semana, às vezes, fico na varanda pintando, ouvindo música e tomando vinho. Com meus filhos e amigos, sempre procuro estar presente. Cuidar dos idosos do abrigo faz me sentir que sempre ganho mais do que dou. Ou seja, a plasticidade humana é fantástica, e organizar metas e propósitos faz o dia parecer ter 30 horas.

O Brasil não é um país leitor. Desde a pandemia, pesquisas indicam que o número de não-leitores superou o de leitores, e a maioria destes últimos lê a Bíblia. Como é ser escritor em um ambiente como esse? Vai continuar escrevendo?
R: A resposta é direta: sim. Como tenho fascínio por história, planejo escrever sobre a invasão holandesa do século XVII em Pernambuco, onde moro, abordando a vida nos engenhos e as relações interpessoais e interraciais do período. O reconhecimento ao escrever um livro é um objetivo esperado por todo escritor, mas ele pode ser dividido em vários aspectos: reconhecimento crítico, sucesso de vendas ou simplesmente conseguir emocionar alguém. E isso, por si só, já pode significar muito.

Este site utiliza cookies para lhe oferecer uma melhor experiência de navegação. Ao navegar neste site, você concorda com o uso de cookies.
Mais Info