Espelho multifacetado reflete a relação entre Brasil e Irlanda

Um romance que começa nos morros no Rio de Janeiro e vai dar na Irlanda, com pitadas de Filosofia e aventura à época das navegações. Assim é “Espelho partido”, estreia do escritor e filósofo Phillipe Nery na literatura. Ele parte da história dos irmãos Bruno e Augusto, ambos ruivos, o primeiro morador da comunidade da Babilônia, no Rio de Janeiro, e o segundo, artista plástico reconhecido em Paris, para narrar a saga da família irlandesa O’Leary, que se ramifica em nosso país graças ao encontro amoroso entre o irlandês Brendan e a portuguesa Ana Rosa. Resultado de extensa pesquisa, “Espelho partido” lança luz sobre recortes pouco conhecidos da nossa História e contribui para a uma melhor compreensão do caldeirão cultural formador do povo brasileiro. Leiam a entrevista com o autor.

A Irlanda não é muito lembrada quando falamos sobre a formação do povo brasileiro. De onde surgiu seu interesse por esse país?
R: A Irlanda não é lembrada. Isso é natural, porque irlandeses constituem mesmo uma parcela ínfima na mistura de que surge o povo brasileiro. O interesse surgiu de um mito irlandês que representa muito daquilo que nós, brasileiros, insistimos em ver no país: infinitas possibilidades e belezas naturais, um favorecimento divino. Ainda que o testemunho consciente tenha contrariado essa visão há tanto tempo.

Você empreendeu uma longa pesquisa para escrever o livro. Como se deu o processo? Onde e como pesquisou?
R: Pesquisei o mito irlandês – trata-se da lendária ilha de Hy-Brazil – na literatura disponível. Cito especialmente o livro de Geraldo Cantarino, “Uma ilha chamada Brasil”. Então, aprofundei o conhecimento acerca de lugares, construções, figuras históricas, contextos e períodos por meio do conteúdo digital fundamentado. Também visitei a Irlanda , o que me permitiu assimilar o caráter do povo e de sua cultura extremamente rica.

A Filosofia aparece em cenas e situações deixando transparecer a sua formação. Como ela influencia a sua visão de mundo e a sua literatura?
R: Li uma matéria, recentemente, que esboçou um alerta acerca de uma tendência a se negligenciar o significado para se ater ao significante. Esse seria um resultado da imersão no imediatismo das redes. A filosofia funciona como um hardware implantado diretamente em nossa consciência, uma espécie de firewall, – o uso da palavra aqui não é acidental – um filtro que impede o desenvolvimento intelectivo mórbido. Lanço mão desse recurso em meus textos como uma senha para nossa humanidade, a natureza comum a autor e leitor.

O livro contém a árvore genealógica da família O´Leary, cujo nome é aportuguesado por causa do erro de grafia em uma certidão. Foi muito trabalhoso construir essa genealogia fictícia? Quanto tempo levou escrevendo o livro?
R: O erro de grafia em uma certidão, como qualquer imperfeição, é mais um traço de nossa natureza. Quantos de nós não temos um antepassado cujo nome estrangeiro foi modificado em sua chegada? Essa foi mesmo uma forma de atribuir verossimilhança a uma situação que poderia parecer excessivamente idealizada, ainda com um toque de humor. Enfim, a genealogia foi sendo construída ao longo da escrita, que levou quatro anos.

A sua bagagem literária, de leituras, também aparece na obra, e dialoga com o conteúdo da conta @neryphillipe no Instagram. O quanto a leitura ocupa de seu tempo? O que tem lido ultimamente?
R: Leio entre uma e duas horas por dia, mas tem dias em que não leio. E tem situações – como estar confinado em um avião por várias horas – que prefiro enfrentar lendo. Agora estou lendo Borges, Freud e Wilde. Avanço lentamente na “Crítica da faculdade do juízo” e em um livro de artigos sobre o Oriente Médio.

O tema da vez é o uso de inteligência artificial para escrever livros. Como é a sua relação com este recurso?
R: Minha relação com a IA é a relação de um artesão com sua ferramenta. Utilizo como recurso de pesquisa que me permite adotar ou descartar um caminho. Ela propicia agilidade à pesquisa, o que é bastante útil. Cada vez mais, também vejo a IA como um objeto sobre o qual pretendo escrever. Ela já pode deixar de figurar como um contexto típico da ficção científica e se tornar um personagem.

Quais são seus planos, como escritor, a partir de agora?
R: Tenho meu próximo romance estruturado, para começar a escrever. Dessa vez vou ambientar a história em Paris e não acho que o Brasil esteja presente como esteve em “Espelho Partido”. Alguns personagens serão velhos conhecidos de nós, leitores. Espero conseguir produzir com mais agilidade e concluir o manuscrito em menos tempo do que o que levei escrevendo o último romance.

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