Churrasco no Brasil profundo

Longe das redes sociais, leitor atento de literatura brasileira e estrangeira, clássicos e contemporâneos, o escritor Tiago Donoso vem construindo sua carreira com livros em que a arte literária, o humor e a crítica social se entrelaçam e confluem para uma experiência estética que instiga e encanta leitores maduros. Encenado na duração de um dia e em um ambiente meio rural, meio urbano, seu romance “Churrasco” (Kotter Editorial) narra a reunião de conhecidos e familiares no rancho de Dona Ana para comer um galo cozido e realizar um culto evangélico. Parece uma história comum, mas é transformada em joia literária graças ao trabalho de linguagem empreendido pelo autor. Leiam a entrevista com Tiago.

“Churrasco” e seus livros anteriores, “Terras nacionais e terras estrangeiras” (contos) e “Vladimir dança para as máquinas” (romance), retratam com humor e acidez um extrato da sociedade brasileira que alguns chamam “Brasil profundo”. Que Brasil é esse?
R: Eu acho que aqui há um paradoxo interessante: o Brasil profundo é menos um lugar geográfico que uma observação mais atenta de nós mesmos – e não “profundamente”, mas sim de um jeito ainda mais superficial. Sem psicologização, digo. Somos nós mesmos, observados com algum distanciamento, com alguma reverência, talvez até com algum asco. É o jeito que observaríamos alguma coisa que fosse sagrada. Mas, pensando por outro lado na nossa geografia e na nossa história, o Brasil profundo me parece aquele que, ao contrário das grandes capitais, está mais distante da metrópole colonial, do centro de poder econômico, político. Então, ali a gente só tem o resultado, imposto meio que na inércia, na força bruta, e sem mediação: sem uma classe média cosmopolita, que gerencie ideologicamente essa correia de transmissão. Então, voltando à pergunta, acho que o Brasil profundo somos nós todos, em potencial, exatamente pelo fato de não termos muito retoque: um país repleto de alegria, de humor, de fantasmas, com uma tendência ao sadismo e à esperança.

O que diferencia o olhar de um escritor sobre a realidade do olhar de uma pessoa comum? Como é o seu olhar sobre a realidade em que vive – morador de Ribeirão Preto, interior de SP?
R: Pergunta boa e difícil… Eu acho que de novo a coisa está na distância. A gente costuma estar próximo demais dos amigos, longe demais dos estranhos. Talvez seja uma questão de ajuste de foco. Nem tão longe que nos deixe indiferentes, nem tão perto que se torne narcísico. No final das contas, acho que o olhar do escritor é um olhar que tende a algum ponto de fuga; de uma testemunha, de um morto que, ao contrário das histórias de terror, estivesse aqui vagando por qualquer outro motivo que não o ressentimento. E não falo de objetividade. Ribeirão Preto, observada assim, com essa paixão distraída, porém não objetiva, é uma cidade exuberante, apesar de um pouco fria. O que é um absurdo, visto que a cidade é conhecida pelo calor, pela lenda de ter sido um vulcão. Mas, enfim, a gente não pode perder de vista que o escritor é uma pessoa comum. É isso o que pode torná-lo capaz de coisas extraordinárias, de expressar anseios comuns.

Os personagens de “Churrasco” são impagáveis. De onde eles vêm? Como surgem dentro de você?
R: Eles surgem daquela observação, com um interesse legítimo. É como se eu quisesse ser amigo de cada um deles, mesmo dos piores, mas não pudesse porque estivesse morto, ou porque estivesse em outra classe social. É como se eu me assombrasse com eles até quase o desespero, até começar a rir.

O trabalho intenso com a linguagem é percebido e admirável. Como é seu processo criativo? O texto sai num jorro e trabalha sobre ele depois? Quanto tempo leva escrevendo um livro?
R: Muito obrigado pela observação e, realmente, isso é muito importante ali. Acho que, pra buscar uma espécie de olhar redentor, é preciso que a linguagem acompanhe. Nossas orações, por exemplo. Uma oração bonita, do tipo “perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”, é sinal de que há dignidade na relação entre nós e o nosso Deus. Um sinal meio astuto de igualdade. A escrita feita com cuidado, com atenção, significa que a gente procura entender a dignidade de estar vivo. Por isso mesmo, acho que a escrita acaba tendo velocidades variadas: a depender do que se observa. Mas, a regra é: quanto mais rápido sai, quanto maior a inspiração, maior vai ser a necessidade de correção depois. A inspiração tem isso, de ser autoindulgente. Ou nós ficamos autoindulgentes com ela por acharmos que tem alguma coisa de especial, de divino, e daí perdemos a capacidade de correção. Enfim, entre escrita e correção, acho que uns dois anos, mais ou menos e divididos meio-a-meio, pra um livro do tamanho do “Churrasco”.

Se pudesse escolher uma qualidade do seu livro, qual seria? O que “Churrasco” tem de melhor?
R: Acho que aquilo que ele tenta fazer, não sei se exatamente aquilo que ele faz. A qualidade de ver as pessoas de fora, um pouco assombrado. Essa procura pela redenção, também pela linguagem. Porque a gente tem essa ideia de que a utopia é idealização, romantismo, falta de nexo com a realidade. Não acho que seja. Se um escritor não é utópico, então ele está tentando lucrar com o apocalipse – ele se torna cínico. Não irônico, mas cínico. E as verdadeiras histórias de redenção e de utopia são tudo menos cor-de-rosa. É só olhar, por exemplo, “Crime e castigo”, que pra mim é uma história de redenção deslumbrante, mas com um forte cheiro de urina. Ou o “Livro de Jó”, com seu “que Deus te dê em dobro” final, abusivo, despropositado. A gente vai lendo, vendo furacões, Behemotes, montanhas, e não sai da cabeça o bicho-do-pé que Jó cutuca com um pedaço de telha. Então, pra mim, a melhor qualidade do “Churrasco” é essa tentativa, a de alcançar alguma forma de representação da redenção, ainda que duvidosa.

Você não usa redes sociais. Já tentaram lhe convencer e não quis. Por quê? Não acha que pode dificultar a divulgação?
R: É que acho perigoso o que essa tecnologia pode fazer com a atenção. E eu tenho medo do vício. Meu medo é esse: imagina que consiga usar as redes sociais, divulgar meu trabalho, passar a ser lido por mais gente; só que, no caminho, por ter perdido a capacidade de ficar sozinho, de ter silêncio sem pensar ou atender a interrupções, eu não consiga mais escrever. Enfim, me acho vulnerável o suficiente pra não arriscar. As redes sociais, especificamente, me parecem um recurso desse capitalismo norte-americano, feito no deserto do vale do Silício, e que tem a pretensão de transformar o resto do planeta em um deserto, à sua imagem e semelhança.

Para que você escreve? Para quem? O que espera alcançar com seus livros?
R: Quero fazer companhia a essa multidão de bons escritores que tem surgido no Brasil ultimamente. Falei em redenção, em utopia. Eu acho que, apesar dos horrores atuais, em breve vamos ter um tempo de grande florescimento. Aposto nisso. Uma mudança de sensibilidade, mesmo. Acho que alguns escritores, pensadores e artistas, hoje, fazem isso, e gostaria de estar em sua companhia. Para o dia em que a palavra “povo” sirva para cada um de nós, e não mais para o outro. Vai ser o dia da redenção também para a literatura: todo livro, assim como toda história oral, de uma hora para a outra, passará a ser parte da literatura popular. Esse é o meu sonho, ou o meu delírio: ter algo a contribuir para o dia em que a literatura volte a ser chamada para o front.

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