Elogiado pela crítica literária, comparado a Franz Kafka, traduzido para vários países, estudado em universidades, premiado com o Jabuti e o APCA, amado pelos amigos e alunos – foi professor no curso de comunicação social da FACHA (RJ) –, o genial Victor Giudice tem sua obra agora reeditada graças à família do autor. O primeiro volume traz, reunidos, os contos de seu livro de estreia, “Necrológio” (1972), cujo texto “O arquivo” é utilizado até hoje em livros didáticos, concursos e vestibulares, e “Os banheiros” (1979). Oasys Cultural convidou Renata Del Giudice e Eneida Santos, filha e viúva do autor, respectivamente, para responder esta entrevista. Parabéns à iniciativa dessas duas mulheres!
Como surgiu a decisão de reeditar a obra do Victor?
Renata – Esse é um projeto que temos há muito tempo. A principal motivação vem do fato de que a obra, mesmo fora de catálogo, continua sendo lembrada e citada. Por exemplo, o conto O arquivo é usado em provas de vestibular, em livros didáticos. Recebemos pedidos de inclusão de contos em antologias, pedidos de jovens cineastas para que autorizemos a adaptação de contos. Autores atuais, como Raphael Montes, espontaneamente citam alguns textos como referência ou como um encontro inspirador. Então, é um caminho que a própria obra vem traçando, sinalizando que precisa estar disponível para que os leitores tenham a chance de encontrá-la.
Eneida – O desejo de reedição sempre esteve presente em nós. Desde a ausência do Victor, esse desejo de preservar sua produção ficcional tem, de certo modo, se mantido vivo e realizado: o livro O museu Darbot e outros mistérios (prêmio Jabuti de 1995), traduzido para o francês (Le Musée Darbot et autres mystères – tradução de Véronique Basset, Edition Eulina Carvalho- 1998), foi um dos destaques do Salão do Livro de Paris – 1998. O conto que dá título ao livro já havia sido publicado na França, em 1997, na revista anual de literatura Caravanes; o romance inacabado Do catálogo de flores foi publicado em 1999 pela José Olympio Editora, juntamente com a segunda edição de O Museu Darbot e outros mistérios; o conto O arquivo integrou o best seller Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século, antologia organizada por Ítalo Moriconi (Editora Objetiva, 2000); o romance O sétimo punhal (José Olympio Editora – 1995) recebeu duas reedições póstumas (a mais recente em 2008); O arquivo integra a antologia Quarteto mágico (Editora Autêntica – 2018); e, em 2025, seus dois primeiros livros de contos Necrológio e Os banheiros foram reunidos em um único volume publicado pela Kotter Editorial.
Victor foi reconhecido e celebrado pela crítica literária em sua época, conquistando fãs como Carlos Drummond de Andrade, Nélida Piñon, Caio Fernando Abreu, entre muitos outros. Como ele recebia esses elogios?
Renata – Ele era uma pessoa muito afetiva, acho que esses elogios vindos de pessoas que ele admirava eram um alimento pra criatividade dele. E ele era também uma pessoa muito generosa, que não poupava elogios aos artistas – muitos – que ele amava de uma maneira que contagiava a gente, quando ele falava sobre as obras musicais, literárias, cinematográficas, plásticas das quais ele gostava.
Eneida – Victor também era fã de Drummond, Nélida e Caio. E também admirava muitos outros escritores que o elogiavam. A admiração recíproca lhe causava uma sensação de pertencimento. Portanto, os elogios eram recebidos com alegria e entusiasmo, sendo um estímulo a mais para continuar a escrever.
Victor era um multiartista. Foi escritor, professor, compositor, poeta, músico, fotógrafo, artista gráfico – a capa da edição atual de “O arquivo e outras histórias” é ilustrada com um desenho de sua autoria. Como todos esses talentos se manifestavam em seu dia a dia?
Renata – Esses talentos se manifestavam de forma muito natural, sem nenhuma afetação, a todo momento. A sensação, ao seu lado, era de que as situações mais triviais poderiam de repente se transformar em eventos singulares, inesquecíveis. Um encontro casual virava charge ou caricatura; você podia voltar de um passeio ao Real Gabinete Português de Leitura com a certeza de que havia presenciado um grande acontecimento artístico num canto daquela biblioteca monumental, enquanto Victor declamava de cor e em voz baixa, pra que ninguém mais ouvisse, um poema de António Nobre. Ah, e ele era também um cozinheiro e tanto e tinha duas especialidades: papas portuguesas e doces, especialmente quindões e manjares marmorizados.
Eneida – Victor era um vulcão de aptidões e talentos, que se manifestaram muito cedo e fizeram dele um homem múltiplo. O amor pela música surgiu na infância, quando já frequentava o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, levado pelo pai, para ver grandes maestros em ação. A partir daí, a música – tanto clássica como popular – foi presença constante e muito forte. Também a cinefilia e o amor pelas imagens se perpetuaram vida afora e se manifestavam em seu cotidiano, como fruição individual quase diária e como maneira de entreter a família e os amigos em saraus literários e musicais. Nessas ocasiões, exibia filmes de sua predileção, tocava ao piano composições próprias e pop standards americanos, cantava árias de ópera, dublava cantores com perfeição, lia tarot para anfitriões estarrecidos, cozinhava receitas de sua autoria etc etc.
Como era a convivência com ele?
Renata – Era uma convivência muito alegre. Ele era uma pessoa muito intensa e cheia de vitalidade. Uma vez, quando ele estava ministrando um minicurso de introdução à ópera no CCBB-Rio, um aluno perguntou se a aula da semana seguinte seria suspensa pois cairia na quarta-feira de cinzas e comentou que ópera não combinava com carnaval. Meu pai prontamente respondeu que a aula estava mantida e que quem viesse conheceria as afinidades entre as duas manifestações artísticas. Eu me lembro que ele passou aqueles dias às voltas com seu violão. Victor iniciou a aula da quarta de cinzas apertando o botão de um gravador, que nos revelou o ótimo samba-enredo “Ópera-Samba, a ópera louca dos carnavais”, que ele tinha composto e gravado na última semana.
Eneida – Conviver com Victor era uma festa quase permanente. Com seu jeito de ironizar o cotidiano e as convenções, ele sempre se envolvia em situações em que o humor prevalecia. Por exemplo, gostava de provocar amigos e familiares com trotes telefônicos em que, com seu inquestionável talento de ator, encarnava personagens, de preferência, femininos. Nesses trotes, iniciava conversas corriqueiras que, de repente, introduziam temas absurdos, blasfêmias disparatadas, deixando indignado o interlocutor ludibriado. Logo em seguida, ele desmentia tudo e se identificava. O interlocutor, de indignado passava a decepcionado: “ah, era você, Victor?” (o que não impedia que se deixasse enganar no próximo trote).
O que leitores do século vinte e um ganham ao ler Victor Giudice?
Renata – A ficção de Victor Giudice tem uma atualidade desconcertante e faz um mergulho profundo na realidade para desnudar, com doses de ironia, os absurdos que habitam as relações familiares, as relações sociais, as relações de trabalho, as relações jurídicas, os autoritarismos políticos.
Eneida – Em sua literatura, Victor antecipou com maestria vários sintomas da vida moderna. Portanto, os leitores do século vinte e um podem identificar esses sintomas e sentir que as angústias individuais e coletivas da atualidade encontram eco na obra de Victor Giudice, e certamente ela será por eles apreciada.

