Sonhos e fantasias de um narrador

Um escritor em busca de uma boa história ouve falar de Nikki, mulher que vive em um posto de gasolina abandonado no interior do país. Disposto a encontrar sua personagem, vai seguindo as pistas até chegar a ela, que já foi viciada em drogas, é dada a êxtases místicos, praticou assaltos e distribuía à população os bens roubados. Tudo isso contribuiu para que uma espécie de culto se formasse ao redor da sua figura. Esse é o enredo de “A ficcionista”, romance de Godofredo de Oliveira Neto, professor titular de Literatura Brasileira da UFRJ e membro da Academia Brasileira de Letras. Leiam a entrevista com o escritor.

Em “A ficcionista”, a protagonista narra episódios de sua vida, em gravações. Por que escolheu esse formato para contar essa história?
R: Precisamos pensar que o discurso literário fala sempre sobre ele próprio. A literatura opera para um Brasil não preconceituoso e não excludente, sim, e ainda bem, mas ela não pode esquecer a sua autonomia artística. Eu quis mostrar como acontece a criação literária, a forma de o narrador/a arquitetar a sua obra. Quem narra “A ficcionista”? O leitor/a dirá.

A personagem Nikki é tanto complexa quanto fascinante. Como ela surgiu?
R: A personagem Nikki surge da reflexão sobre a condição humana. A gente transfigura a realidade no dia a dia (principalmente quando nos convém) e essa transfiguração se dá claramente no diálogo entre narrador e personagem. É a fórmula mais fácil de pacificar as paixões e os desejos. É o modelo da psicanálise. Nikki administra seus fantasmas e as fantasias dos outros, principalmente de que lê. Nikki nasceu dessas reflexões do autor.

Os Aparados da Serra, região de natureza selvagem, deslumbrante e perigosa, contribui para o “clima” da obra. Como construiu esse clima? Existe uma técnica ou surge naturalmente?
R: O primeiro capítulo (gravação) mostra a grandiosidade dos Aparados da Serra, mas os personagens, contrariando o costume turístico, estão em baixo, olham os enormes paredões de baixo para cima, esse é o lado underground deles, como a sua consciência. O clima de ruptura e de quebra da magia dá início ao romance.

Você tem muitos outros livros publicados, inclusive, juvenis, como “Ana e a margem do rio” e “Oleg e os clones”, adotados em escolas. De onde vem o impulso para escrever? E como elege determinado tema?
R: O ângulo de observação é fundamental na literatura, seja a fábula, contos infantis, romance histórico, policial etc. Não tem como fugir da perspectiva. Às vezes o escritor opta por uma perspectiva, em outro momento, por outra. Não fujo a essa regra.

Você ainda trabalha como professor? Como essa atividade dialoga com a sua produção literária?
R: Relembro sempre a importância da figura do narrador, costumo dizer aos iniciantes que busquem criar essa figura literária com vigor. Que deve ser diferente do autor, essas duas entidades, narrador e autor se imbricam, ok, mas a parte estranha ao narrador é de vital importância. Separo, assim, ou pelo menos tento, o ficcionista do docente.

Desde setembro de 2022, você ocupa a cadeira 35 da Academia Brasileira de Letras, tendo se tornado um “imortal”. O que mudou na sua vida e na sua literatura desde então?
R: Vem sendo uma experiência muito rica. A convivência na ABL é extremamente fraterna. Como há mais de uma área de conhecimento entre os acadêmicos, aprendo muito nas nossas reuniões. A ABL é uma das mais importantes instituições culturais do país, integrá-la é para mim uma grande honra.

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