Em seu segundo livro de contos, “A culpa deve ser do sol” (Ed. 7 Letras), Gustavo Alkmim pisa nos calos dos leitores ao mostrar cenas e situações de um cotidiano em que o preconceito e a violência foram normatizados. Mas se a pisada dói, ela é amenizada pela excelência ao narrar histórias mais que envolventes: ora com a voz sólida de um narrador onisciente, com ecos de Machado – cem por cento contemporâneo –, ora em primeira pessoa crível e fidedigna. Leiam a entrevista com o escritor.
Com seu primeiro livro, “O futuro te espera” (Ed. 7 Letras, 2021), você ganhou o 1º lugar na categoria Contos no Prêmio da União Brasileira dos Escritores (RJ). O que mudou desde então?
R: Amadurecimento como escritor. Penso que a boa aceitação do meu primeiro livro acabou me dando mais confiança na minha escrita. Neste segundo livro, senti segurança para ousar um pouco mais, tanto no conteúdo, quanto na estética. A ponto de transitar por temas espinhosos, reflexivos e que não necessariamente culminam num happy end.
“A culpa deve ser do sol” tem prefácio do Prof. Ivan Cavalcanti Proença, de quem é aluno há muitos anos. O que essa convivência e aprendizado trouxeram para você e sua literatura?
R: O Professor Ivan Proença é uma referência quando ao assunto é oficina literária. Boa parte dos meus contos é fruto de trabalhos que fiz para a oficina e passaram pelo crivo do Professor Ivan. Que, desde o primeiro livro, muito me estimulou, fazendo críticas, sugestões. Ensinando mesmo. Ivan é um professor na acepção da palavra, didático e generoso no ofício de ensinar.
Na nota “Ao leitor”, no início do livro, você brinca com uma voz impregnada de estilo machadiano – e que não se repete no decorrer do livro. É uma maneira de nos dizer o quanto Machado de Assis é importante para você?
R: A nota é uma evidente referência a Machado. Uma homenagem ao nosso maior escritor, a quem admiro profundamente. Sou seu leitor permanente. Impossível negar sua influência. Principalmente pela forma com que ele lida com as contradições humanas e a íntima convivência do Bem com o Mal. De alguma maneira, acho que trouxe um pouco destes paradoxos – repito: tão miseravelmente humanos – para minha escrita e estão presentes no meu novo livro. Contudo, as coincidências param aí. Até porque acho uma tolice querer imitar Machado, seja no estilo, seja nas temáticas. Impossível – simples assim.
Os contos são divididos em três partes: Cálice amargo, Mistério e Procissão. Por quê?
R: O pano de fundo dos meus contos tem fortes marcas da civilização ocidental cristã, e seus valores sobre religião, família, pecado e amor, no nosso cotidiano. Temas que falam de vida, paixão e morte. A partir desta premissa, minha intenção foi dar uma uniformidade às narrativas, agrupando-as conforme seus conteúdos. Na primeira parte, Cálice amargo, temos o sentido trágico da existência. Os contos do tópico Mistério são mais reflexivos, traçados por angústias e epifanias que cercam os personagens. Finalmente, a terceira parte, Procissão, um desfilar de situações cotidianas, banais até, muitas das quais o leitor certamente irá se identificar.
Você acompanha a Literatura Brasileira Contemporânea? O que tem lido?
R: Tenho lido alguns dos nossos novos escritores, e gostado bastante. Cito Jeferson Tenório, Eliane Alves Cruz, Giovani Martins, jovens autores que muito me impressionaram. Além de outros mais citados, Itamar Vieira Junior, Carla Madeira, Tatiana Salem Levy, Raphael Montes, Sérgio Rodrigues. Sem esquecer, claro, Ana Maria Gonçalves e seu maravilhoso “Um defeito de cor”.
Após dois livros de contos, é natural que seus leitores esperem de você um romance. Tem pensado nisso?
R: Gosto muito de escrever contos. E eles cabem melhor no meu cotidiano de trabalho. Mas tenho como meta, sim, um romance. Em breve ou um pouco mais, a depender das voltas que a vida dá.

