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Oasys na Bienal do Rio de Janeiro

19 de setembro de 2017

Quarenta anos de escrita e educação

A infância em Paraty, a juventude como professora em uma fazenda no interior do RJ, o pai músico, clarinetista, a mãe também professora, negra, concursada. A vida da poeta e educadora Amélia Alves flui por essas duas principais vertentes: a Educação, trabalhando junto ao governo do Estado do Rio de Janeiro em época bem mais gloriosa que a atual, e a Literatura. Daí surgiram versos que falam de temas bem humanos e brasileiros, cheios de graça, sensualidade e exuberância.

 

Além de poeta, você é educadora de mão cheia e dedicou a vida à criação de iniciativas que marcaram época. Cite algumas delas, as mais importantes.

Escrever e ler são atos solitários, educar é ato solidário, em que o ler e o escrever são ferramentas e instrumentos que se complementam na formação de pessoas. Meu espaço maior de criação foi sempre o da sala de aula, desde a escolinha isolada da zona rural até a universidade. Essa linha de pensamento possibilitou que participasse de vários projetos, como o Programa Especial de Educação para implantação dos CIEPS, criado por Darcy Ribeiro e fundamentado nas ideias de Anísio Teixeira, e o projeto Uso dos Meios de Comunicação na Escola. Estes me direcionaram para a aplicação da leitura crítica da mídia e a formação de uma consciência crítica da realidade em que vivemos, base de minha dissertação de mestrado “Pedagogia do meio ou da mensagem? – Semiose da leitura na telenovela”. Esta versava sobre a produção dos significados na leitura crítica da realidade, instrumentada pelos parâmetros da Pedagogia da Linguagem Total (Francisco Gutierrez, 1982).

 

A juventude em Campos dos Goytacazes foi marcada, já, pela experiência de ser professora. Como foi isso?

Aos 17 anos, após terminar o curso clássico e a escola normal, dava aulas particulares de português, francês e inglês. Também participei da campanha nacional de erradicação do analfabetismo, em 1963, como professora substituta num escola da zona rural. Concursada aos 18 anos, trabalhei mais cinco anos na zona rural, ensinando os alunos a ler,escrever e contar, enquanto cursava a Faculdade de Filosofia. Antes de terminar a FAFIC, eu, que já trabalhava com quatro níveis de ensino, incluindo os cursos de vestibular da própria faculdade, comecei a compor uma espécie de livro juntamente com os alunos, mediando os conteúdos necessários para uma aprendizagem real e autêntica, em que contribuíam, muitas vezes, através da pesquisa sobre temas em voga, ou por sua própria produção textual, onde todos escreviam e se liam.  Os textos dos alunos eram publicados no que apelidei de Cadernos de Comunicação e distribuídos no final de cada bimestre. Esses textos serviam de base para as aulas que se desenvolviam a partir do que o aluno não sabia, mas queria e devia aprender. Momento em que me vi escritora e educadora, meus primeiros textos literários brotando inteiros, ganhando espaço em concursos literários e a primeira grande premiação no concurso de ensaios do centenário de Castro de Alves (1971). A partir daí, muita coisa aconteceu: participei da criação de um grupo de teatro no segundo grau noturno de uma escola pública o CENP e da fundação de uma cooperativa de escritores campistas, o Grupo Uni-Verso, que publicou o meu primeiro livro de poemas, “Vácuo e Paisagem”, em 1977.

 

 Sua poesia fala de temas bem brasileiros, sem ser coloquial. Qual é a matriz de seus versos? O que te move?

Eu sou brasileira e a literatura me convida a viver um projeto estético que me faça usufruir do fazer literário na sociedade em que vivo, sob a forma de cidadania que me constrói. Minha poesia é dialógica, interpela o leitor do mesmo jeito que fala comigo, mesmo depois de publicada, como um filete de água pura que parece não secar nunca. A matriz de meus versos sobrevive nas relações que estabeleço com a realidade que me cerca. O que me move é a consciência do texto que transborda de minha história de vida e das leituras de mundo que condensam e traçam a matriz de meus versos. Isso muito me realiza em todos os sentidos.

 

Você é aluna de uma das oficinas literárias mais antigas e importantes do Brasil, do professor Ivan Cavalcanti Proença. Como uma oficina pode ajudar um escritor?

Uma oficina, enquanto espaço de criação literária, pode e deve auxiliar o escritor na descoberta de novas formas de expressar o que tem a dizer, utilizando instrumentos que possibilitam o ato de escrever, enquanto arte impulsionada pelo conhecimento e domínio da língua em seus diversos usos, associados à linguagem metafórica, aquela que transcende os modos corriqueiros de falar, estimulando o crescimento de um projeto estético todo seu.

 

Esse ano a sua poesia faz aniversário, 40 anos. O que planeja daqui pra frente?

Comemorar a publicação de meu primeiro livro, “Vácuo e Paisagem” editado pelo grupo Uni-Verso em 1977, lançado em 1978 no teatro de Bolso de Campos dos Goytacazes. Posteriormente houve outro lançamento no Instituto de Pesquisas das Culturas Negras – IPCN, no Rio de Janeiro, com direito à divulgação no Caderno de Cultura da Tribuna da Imprensa, através do jornalista Jorge Claudir e de uma carta do escritor Pedro Nava em que dizia: “poesia cheia de claridades, de achados de ritmo e verbo ao mesmo tempo que de mistério e hermetismo rimbaudianos”, publicada no Caderno 2 da Folha da manhã, de Campos dos Goytacazes. A celebração acontecerá no PEN CLUBE DO BRASIL, do qual sou membro titular, dia 19 de outubro, às 17h30, e também no evento Cruz Vermelha Cultural, em data ainda a ser divulgada. Todos estão convidados. No mais, vou seguir amadurecendo meu projeto estético-literário, escrevendo mais e mais tudo que me for possível, sob a forma de poesia ou prosa.

 

- Valéria Martins