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Godofredo de Oliveira Neto: segunda edição na França

14 de janeiro de 2015

Menino oculto em Paris

De 20 a 23 de março, Godofredo de Oliveira Neto estará em Paris participando do Salão do Livro a convite da editora Edition Envolume, que acaba de lançar L’enfant caché, tradução para o francês de Menino oculto, romance publicado em 2005 e classificado em segundo lugar no Jabuti 2006, categoria Melhor Romance. O autor lançou em novembro o livro de contos Ilusão e mentira (editora Batel), inspirado em Machado de Assis e adotado pelo ensino médio da Escola ECO, no Grajaú (RJ), e finaliza o romance Grito que sairá em breve pela editora Record. Antes de viajar de férias para Santa Catarina, estado onde nasceu, Godofredo conversou com Oasys Cultural.

 

Qual é a sua relação com a obra de Machado de Assis?

Machado é um autor seminal na história da literatura brasileira e um dos grandes escritores da literatura ocidental. Num momento em que há na literatura contemporânea o estabelecimento de modelos qualitativos individuais (cada obra é única) parece-me fundamental trazer sempre presente a qualidade literária do Bruxo do Cosme Velho. Não copiá-lo, mas examinar como o autor resolveu os problemas da arte de escrever e como respondeu literariamente às grandes questões da sua época. Aproprio-me do Machado para cantar o presente.

 

Porque elegeu esses dois textos – o conto Ideias de canário e o romance Dom Casmurro – como inspiração para Ilusão e mentira?

Ideias de canário aborda a questão da liberdade a partir de um enfoque muito atual. A relatividade das noções do que seja liberdade leva o leitor a indagações que, espera-se, potencialize o humanismo e a fraternidade tão escassa nos dias que correm. Dom Casmurro abraça o tema da verdade de forma genial. O leitor recebe na cara essa ideia angustiante de que a verdade é uma construção retórica. O ciúme de Bentinho e as dissimulações de Capitu turvam a racionalidade do leitor. Liberdade e verdade, essas foram as minhas preocupações no Ilusão e mentira.

 

Você gosta de experimentar novos modos de narrativa. A ficcionista, seu romance anterior, foi escrito como se a protagonista respondesse a perguntas em um gravador. Lalinha é a história de uma velha advogada que também resolve ouvir fitas da época em que trabalhava em uma instituição penal. O que lhe atrai e porque vem explorando esse estilo de diálogo/narrativa?

Uma das facetas da tão falada morte do autor é que o narrador se esconde atrás dos personagens e o livro pertence à história da nossa literatura via Machado. De quebra, proponho, com essa maneira de escrever, uma  mistura entre modalidade falada e modalidade escrita, estilo que o mundo  da internet e das redes sociais trouxe com vigor. Tentei manter uma gradação na questão da apropriação do texto machadiano: no primeiro conto mantive uma dicção mais perto do Machado, preparando o leitor, e no segundo  há uma escritura que se afasta daquela literatura. A oralização ganha mais força e os temas, como o embate entre razão e emoção, verdade e mentira, fatos e versões, são tratados dentro desse viés estilístico.

 

Seu romance Menino oculto acaba de ser publicado na França e irá participar do Salão do Livro de Paris. Como aconteceu essa tradução e publicação?

A Edition Envolume me escreveu manifestando grande interesse em publicá-lo. Penso que a tradução excepcional do Richard Roux ajudou bastante. O editor me convidou para estar em Paris no Salão do Livro a fim de atender à imprensa e ajudar a divulgação. Estou muito feliz e espero que L’enfant caché corresponda à expectativa do editor.

 

Está trabalhando em algum novo projeto atualmente? Pode revelar algo?

Estou terminando o romance Grito, que sairá pela Editora Record. O romance se passa no Rio de Janeiro nos dias de hoje. O personagem é um jovem com a vida profissional e afetiva fragmentada. Sua história é relatada por uma atriz de teatro aposentada e reclusa num pequeno apartamento de Copacabana, onde o jovem mora.

 

Como avalia sua trajetória de escritor até hoje?

Literatura é um trabalho “duro como quebrar pedras”, como disse a Clarice. Tento ir tocando a carreira em velocidade de cruzeiro e com respeito ao leitor e às nossas letras.

 

 

Por Valéria Martins

Foto Mariana Carnaval