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22 de junho de 2015

À sombra de Dante e Shakespeare

William Soares dos Santos é um escritor com bagagem pouco comum. Escreve desde os 12 anos mas somente aos 40 decidiu publicar, começando por suas poesias, embora também seja contista. Estudou – e muito – nesse meio tempo: graduou-se em Letras (português-italiano) pela UFRJ, tornou-se mestre em Linguística Aplicada pela UFRJ e doutor em Estudos da Linguagem pela PUC-Rio, aproveitando cada oportunidade de apreender conhecimento com professores como Marco Lucchesi e Antonio Carlos Secchin, entre vários outros igualmente importantes em sua formação. Atualmente trabalha como professor na UFRJ. rarefeito é seu primeiro livro e sai pela Ibis Libris com lançamento em 30 de junho.

 

Você é doutor em Linguística e atuou como organizador e tradutor de obras acadêmicas. Como consegue se despir da linguagem acadêmica para escrever poesias?

O pensador russo Mikhail Bakhtin, em uma de suas obras, diz que todos nós somos poliglotas do nosso próprio idioma. Essa percepção é fundamental para que possamos entender como articulamos a linguagem em nosso cotidiano já que não falamos da mesma forma com nossos filhos e com os nossos pais ou em um ambiente de negócios e no bar. O mesmo acontece quando trabalhamos com gêneros diferentes. A tradição de Acadêmicos que atuam também no mundo literário é antiga e extensa. Dante Alighieri, por exemplo, entre os séculos XIII e XIV, escreveu sobre questões filosóficas em seu trabalho Convivio, linguísticas em seu trabalho De Vulgari eloquentia (Sobre o falar comum) e nos legou uma das mais importantes obras poéticas da humanidade, a Divina Comédia. Mais recentemente, escritores como John Ronald R. Tolkien, autor de O senhor dos anéis, e Umberto Eco são exemplos de acadêmicos que se dedicaram, também (e nesses casos, com êxito), à literatura.

 

Suas principais referências são poetas clássicos antigos como Dante e Shakespeare. Como começou o interesse por esses poetas? O que vê na poesia deles que difere da poesia contemporânea?

Embora eu seja um leitor constante desses autores e faça referências a eles em meu trabalho literário, em termos formais não acredito que haja uma influência plenamente identificável de suas obras com o que tenho escrito ultimamente. O meu interesse por esses autores foi desenvolvido ao longo de meu percurso de leitor e de formação profissional nas faculdades em que estudei. Ao invés de falar de diferenças eu gostaria de citar alguns paralelos entre o trabalho desses autores e a produção literária da atualidade. Uma das qualidades da poesia de Dante é que nela encontramos o mundo clássico, o mundo cristão e o pensamento emergente do renascimento, o que possibilita um trabalho imensamente rico de referências e de diálogos, característica do trabalho de poetas contemporâneos. Outro elemento que me parece importante é o que chamo de “atualidade do humano”, ou seja, a capacidade de poetas como Shakespeare de falar ao seu tempo, mas também ao nosso.

 

Fale um pouco de sua formação.

Uma formação em literatura não precisa ser necessariamente acadêmica, mas essa foi a minha história. Devo meu conhecimento de autores como Dante, Shakespeare, entre outros, aos professores dos cursos que frequentei nas faculdades de Letras da UFRJ e da PUC-Rio. Alguns deles foram fundamentais, como Helena Parente Cunha, com quem estudei teoria literária e que me levou a ler Paul Verlaine, Charles Baudelaire e Fernando Pessoa. Outro encontro importante foi com o professor Marco Lucchesi, que me fez ver a atualidade de autores como Dante, do qual sou leitor até hoje. Antonio Carlos Secchin marcou muito porque convidava escritores para conversar com seus estudantes. Foi assim que tive a oportunidade de conhecer pessoalmente João Cabral de Melo Neto, Lygia Fagundes Telles e João Ubaldo Ribeiro, entre outros autores. Com a professora Luiza Lobo, de literatura comparada, voltei-me para o mundo da literatura inglesa. Foi com ela que conheci o trabalho de Virginia Woolf, entre outros autores de tradição anglo-saxã. Durante o mestrado, a professora titular (hoje emérita) de literatura inglesa da UFRJ, Marlene Soares dos Santos, orientou a minha pesquisa de dissertação em Linguística Aplicada sobre a leitura de três peças de Shakespeare.

 

A velocidade da comunicação, a dispersão e fragmentação dos discursos conspiram contra nossa concentração na leitura. Qual é o lugar da poesia no mundo de hoje?

A nossa capacidade de nos comunicarmos com velocidade não deve ser vista como algo necessariamente ruim. Elementos como a dispersão, a fragmentação do discurso e a falta de concentração não são novos. Eles já existiam na Idade Média, se acentuaram na Modernidade e, em nossa época, são mais perceptíveis graças ao desenvolvimento tecnológico dos meios de comunicação. Para tirar o melhor proveito do que o nosso tempo oferece devemos desenvolver a nossa concentração para ler e fica difícil isso acontecer sem a figura de um bom mediador, como um professor, ou sem o apoio de uma boa instituição educacional. No caso dos novos meios de comunicação, tudo depende de como são utilizados. Podem servir para nos instruir, para nos aproximar das pessoas e da literatura, ou para nos afastar delas. Em relação ao lugar da poesia no mundo eu acho que é fundamental.

 

Você é tradutor de italiano, graduou-se em Letras português-italiano. Por que escolheu este idioma? Qual é a sua ligação com a Itália e a cultura desse país?

Minha ligação com a Itália possui reminiscências na cidade de Castelo, no Espírito Santo, fortemente marcada pela imigração italiana a partir do final do século XIX. É o local de origem de parte de minha família materna e onde nasceu a minha mãe que, no entanto, passou a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro, cidade na qual nasci e vivo.

Minha escolha por me dedicar ao italiano em minha graduação está ligada, principalmente, à minha formação de leitor. Quando compreendi a centralidade dos autores do renascimento italiano para a formação da literatura ocidental, decidi me dedicar à língua italiana para poder lê-los no original. Em 2014 tive a oportunidade, através de um convênio de pesquisa com a Università per Stranieri di Perugia, de viajar pela primeira vez a Itália e aperfeiçoar meus conhecimentos em um curso.

 

Você também escreve contos e um livro sairá em breve com essas narrativas curtas. O que veio primeiro, a poesia ou os contos? Como é escrever um e outro gênero? Quais são os temas de seus contos?

Embora eu tenha sempre lido todos os gêneros literários ao mesmo tempo, comecei a escrever primeiramente poesia. As primeiras poesias que tenho guardadas – e outras que destruí – datam de meus doze anos de idade. Há uma grande variedade de formas de se trabalhar com esses dois gêneros e, às vezes, eles podem até se confundir. Há poetas que escrevem poesias quase contos e contistas que escrevem contos quase poemas. No meu caso, busco uma síntese maior na poesia. Já o conto, trabalho para criar uma história com uma estrutura que pode ser considerada tradicional, com começo meio e fim, me concentrando bastante no trabalho de construção e condução da narrativa.

 

Poesia é um gênero ingrato no que diz respeito à venda de livros. Mesmo assim o poeta deve publicar? Por quê?

Não existe uma resposta simples para essa questão. Um aspecto é o de que o Brasil precisa desenvolver um trabalho de formação de leitores, sem o qual não pode haver mercado. Esse trabalho é complexo e, como educador, acredito que deva começar na escola e abranger outros espaços educacionais como centros culturais, locais de formação profissional etc., com parcerias entre editoras, escritores e demais envolvidos nos processos de desenvolvimento e distribuição de produtos culturais. Por outro lado, sucessos recentes de publicações de poesias como a obra do poeta Paulo Leminski mostram que há um mercado de leitores de poesia esperando ser motivado a comprar livros. Em relação a publicar ou não, a questão foge ao aspecto puramente mercadológico. Tudo depende do momento do escritor, de oportunidades e de qual o caminho se deseja traçar. O que percebo é que o trabalho poético que vale a pena ser publicado é aquele que tem mais possibilidade de tocar os leitores, seja de forma particular ou universal.

 

Por Valéria Martins