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27 de junho de 2016

A escrita contemporânea de Ubiratan Murraek

Um nazista deixa para trás a Segunda Guerra e resolve ir para a Argentina. No meio do caminho desembarca no Rio de Janeiro e se apaixona por Iracema, uma amazonense com quem se casa e tem uma filha. Ela, Diana Verônica, é a personagem que nos apresenta Um nazista em Copacabana, livro do jornalista Ubiratan Murraek. Com habilidade e riqueza vocabular, o escritor nos conduz por conflitos em duas gerações familiares que refletem as desordens sociais e políticas do Brasil contemporâneo. Noite de autógrafos no dia 27 de junho, às 19h, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional em SP.

 

“Um nazista em Copacabana” tem personagens femininas que são o oposto do estereótipo de “sexo frágil” sem, contudo, serem masculinizadas. Como você desenvolveu a sua percepção do gênero feminino até chegar ao que encontramos no livro?

 

Tenho admiração profunda pelas mulheres, além do ponto de vista afetivo, como força motriz de uma nova configuração social. A galeria de personagens femininos de Um Nazista em Copacabana reflete esse sentimento: Iracema, Circe, Celeste, Diana, Nenê, Salete e Irceres não apenas conduzem a história e fornecem os melhores momentos do livro. Elas são uma espécie de gigantes do dia a dia, em contraposição ao exercício ridículo de poder protagonizado pelos personagens masculinos.

 

Apesar de seus dois livros, Corrida do membro e Um nazista em Copacabana, lidarem com temas essencialmente diferentes, quais características considera o elo entre eles?

 

O apego à narrativa, além de ironia e humor. Digamos que o projeto do Corrida do Membro foi ampliado no Nazista em Copacabana: livros calcados em histórias e personagens, e que buscam, avidamente, o engajamento com o leitor. Com o humor temperando a experiência.

 

Em Um nazista em Copacabana grande parte do charme reside diálogos entre Diana, a mãe Iracema e a amiga Circe, o que confere um toque de Nelson Rodrigues ao livro. Onde buscou inspiração para escrever o linguajar cotidiano das três?

 

Minha grande referência é, de fato, a dramaturgia. Leio mais teatro do que romances. Como ensinou Oscar Wilde: quer escrever bons diálogos? Leia teatro.

 

Os personagens masculinos na sua história podem ser vistos como obstinados por poder e dinheiro, enquanto os femininos tem uma amplitude maior de desejos. Você tem a resposta para aquela famosa pergunta do Freud: “Afinal o que querem as mulheres?”

 

Alguém tem essa resposta? Eu arriscaria: um mundo mais humano, mais divertido e interessante – e certamente mais bem vestido.

 

Como o escritor transforma temas de interesse jornalístico em ficção?

 

Não sei. Em literatura, acho inclusive difícil essa transformação. David Hare, por exemplo, é um dos poucos que consegue fazer arte de temas essencialmente sociais e políticos – no teatro, diga-se.

 

Trabalhando como jornalista já estava determinado a escrever ficção, ou foi uma vontade que veio naturalmente? Quais fatores foram importantes para você se tornar escritor?

 

Meus planos eram: jornalista, colunista e escritor, nessa ordem. Pulei o colunismo e não me arrependo. Vários fatores foram importantes, mas o sentido de realização único que a escrita me dá foi o principal.

 

Quais escritores e livros considera os mais influentes para o seu desenvolvimento como escritor?

 

 

A Relíquia, de Eça de Queiroz, foi fundamental para mim. Assim como as traduções de Kafka, por Modesto Carone – dois gigantes. Ibsen e Beckett moram na minha cabeceira. E Hannah Arendt e Keynes, na junção de ideia e estilo. Além de muitos outros, claro.

 

- José Fontenele